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12 de novembro de 2012

Ser índio no século XXI

Mônica Vallim



Basta ser filho de indígenas e manter-se longe da civilização para ser índio? Ou será preciso aculturar-se para garantir o direito dos povos originários?
Na aproximação com a Aldeia Maracanã, percebe-se que ser índio está além do complexo e amplo sentido de sentir-se ou não um índio no espaço citadino. E tanto pode significar orgulho, quanto distanciamento de sê-lo.

Muitos brasileiros indubitavelmente possuem em sua árvore genealógica resquício de sangue indígena, misturado ao europeu talvez ao africano, afinal, foi assim que se constituiu o povo brasileiro desde a invasão portuguesa em 1500. Embora alguns não tenham sequer noção exata de suas etnias ancestrais, pois a pele branqueou, a história passou a ser o que lhes contaram e o que aprenderam nos livros didáticos – seria por vergonha ou falso orgulho?

A estatura média brasileira também aumentou nas últimas décadas e após sucessivas miscigenações restou o orgulho do sangue europeu nas terras tupiniquins. Para a maioria dos que se declaram brancos, o índio urbano não tem o menor sentido ou valor cultural, principalmente frente aos interesses econômicos e políticos da Copa de 2014.

Mas Mayra, uma indiazinha urbana de uns 12 anos dá mostras pelas redes sociais seu orgulho de ser indígena, fruto de um amor que seria proibido séculos atrás entre as etnias Krikati (mãe) e Guajajara (pai).
Exibe com igual orgulho seu gosto musical juvenil, midiático e o grafismo de jenipapo e carvão da etnia Guajajara, que gera curiosidade aos seus colegas na escola.

   


Sua participação em uma cerimonia da Aldeia Maracanã – “Etnia Guajajara e Etnia Krikatí - DIA DA CONTAÇÃO DE HISTÓRIA 10 SETEMBRO 2011” – está inclusive disponível no youtube e comentada em blog, celebra publicamente a sua primeira menstruação. Mas ela não se mostra constrangida, ou, como diriam os mais antigos, incomodada.
Com riso farto ostenta o seu uniforme de estudante do Instituto Superior de Educação do Rio de Janeiro na Oca do Antigo Museu do Índio. Participa da luta para que naquele pedaço de terra o prédio em ruínas localizado ao lado do Maracanã, seja oficialmente reconhecido como um Centro Cultural Indígena que contemple as várias etnias indígenas e quem sabe ali nasça a primeira universidade indígena do Brasil.

A jovem menina moça parece ser o colóquio aberto e perene entre as culturas indígena e brasileira no contexto urbano. Acultura-se com consciência de sua identidade, direitos, deveres, tradições e língua.

“O direito à cidade manifesta-se como forma superior dos direitos: direito à liberdade, à individualização na socialização, ao habitá-la e morar. O direito à obra (à atividade participante) e o direito à apropriação (bem distinto do direito à propriedade) estão implícitos se no direito à cidade”. (Lefebvre, 1968, p.155)

Espera-se ao término desse breve relato ter contribuído para dar visibilidade aos índios urbanos praticamente sitiados a cada avanço das obras de revitalização do entorno do Maracanã, e seu ideal de defender naquele espaço a luta indígena para a restauração de um patrimônio histórico centenário que é  de todos nós brasileiros. Foi através da resistência da Aldeia Maracanã que nesse pequeno espaço/tempo criou um centro cultural indígena em um não lugar urbano e por meio da obstinação indígena que o prédio do Antigo Museu do Índio ainda se mantém em pé. 

Preservem-se através dos registros online as ações que contribuíram de alguma forma para o cuidado da memória histórica e cultural que apesar da precariedade e  descaso com o bem público ainda persiste como uma resistência política e organizada naquele espaço/território dando voz aos anseios dos povos originários do Brasil e que por conta dessa ocupação pacífica e legal ainda pode ser visitado todos os sábados por escolas e/ou qualquer pessoa interessada na variedade multiétnica, multilinguistica e multicultural de nossos indígenas. 

19 de junho de 2012

MANIFESTO ALDEIA MARACANÃ

Rio de Janeiro, 18 de Junho de 2012

MANIFESTO ALDEIA MARACA-NÃ


Se você recebeu esta carta, certamente é um indígena legítimo ou um  verdadeiro apoiador das causas indígenas.É com muita insatisfação com o descaso público que trazemos a você mais uma de muitas lutas dos nossos irmãos indígenas, luta esta que estou envolvida de corpo e alma.

Há aproximadamente seis anos o antigo museu do índio foi ocupado por uma frente de resistência envolvendo diversas etnias do nosso extenso pais. Esse grupo de parentes, do qual faço parte, tem entre seus propósito resistir contra os intentos do governo de construir, no prédio fundado por Darcy Ribeiro, um shopping ou estacionamento para o estádio do Maracanã, que fica ao lado.O prédio, que já se encontra em condições deploráveis, foi berço do antigo SPI, Serviço de Proteção ao Índio, que deu origem a atual e ineficiente FUNAI, alem de ter abrigado as primeiras instalações do Museu do Índio, que agora está localizado na Rua das Palmeiras, 55, no bairro de Botafogo.

Parentes, é com muita dor que pedimos o seu apoio, pois aquele chão que outrora foi motivo de algum orgulho, hoje encontra-se na iminência de ser deserdado de todas as nossas futuras gerações. A terra indígena da mata é invadida e desrespeitada todos os dias e agora esse governo corrupto, sem raízes e vazio quer tomar alguns poucos metros de terra indígena no coração urbano da cidade do Rio de Janeiro. Não vamos permitir que roubem de nós um chão conquistado com tanta luta! Nós, os integrantes deste movimento de ocupação e resistência,  pedimos o apoio de todos os parentes para criarmos o Centro Cultural Indígena Aldeia Maracanã, que abrigará todas as etnias, línguas e culturas e será um ponto de encontro entre todas as lideranças indígenas do nosso pais. Para que a cada dia as culturas e a população indígena seja valorizada, respeitada e inserida na sociedade civil e política.

Queremos convidar aos parentes para uma manifestação pacifica ao redor do estádio do Maracanã, nesta quinta-feira (21/06/2012) às 17:30h. Uma luta sem violência, uma guerra sem morte e uma vitória que possa ser assistida pelas lentes da imprensa nacional e internacional. Os olhos do mundo estão voltados para a cidade do Rio de Janeiro.  Não vamos esconder nossas culturas e sonhos ficando somente sentando em cadeiras de plástico debaixo de tendas, ouvindo apenas palavras. Vamos transformar as palavras em atitudes e os sonhos em realidade. O estádio mais famoso do Brasil e do mundo tem um nome indígena, Maracanã. Parentes, podem ter certeza que a maior parte dos cariocas nem sabe disso. O nome Maracanã vem do tupi-guarani, da palavra MARACÁ. Queremos formar uma corrente em volta de todo o estádio com todos os parente tocando maracá e cantando e dançando seus rituais.Vamos fazer  o maior círculo indígena do mundo, chamando a atenção da sociedade civil para os descasos das autoridades para com a memória histórica da trajetória indígena na cidade que abriga este mega evento chamado Rio+20.


Zahy Guajajara;

Integrante da ocupação indígena Aldeia Maracanã.

15 de abril de 2012

Visita à Aldeia Maracanã - sentimentos

http://todosomosindigenas.blogspot.com.br/
Mirza da Silva Albuquerque Santos
Uma das atividades da disciplina  "Estudos interdisciplinares do Rio de Janeiro" deste ano foi a visita, no dia 25 de março, ao antigo Museu do Índio no Maracanã, um lugar extremamente rico em história e completamente pobre em preservação.  Lá, foi possível perceber que, em relação à trajetória do resgate cultural indígena,  a ignorância nos assola e nos corrompe a cada dia. Um sentimento de impotência me invadiu. Onde estava, em todos esses anos, a “carioca da gema”? Nascida e criada no Rio de Janeiro, nem me dei conta da luta ainda em curso contra os indígenas e sua cultura, bem em solo urbano. Vivemos na ilusão! Índio não vive pelado dentro das Matas Amazônicas.  Índio sou eu e você.
http://www.ecodebate.com.br/2010/03/13/rj-indios-querem-salvar-o-antigo-museu-do-indio/Foto Norbert Suchanek
Em uma rápida pesquisa pela internet, constatei  que a luta é desigual, que as militâncias estão enfraquecidas, que poucos lutam pela causa da restauração do museu e, no reconhecimento da cultura indígena como patrimônio cultural, políticos e autoridades que apoiavam o movimento, calaram-se.  Hoje só quem se interessa pelo espaço cultural são os defensores dos direitos humanos e professores  que reconhecem a importância da cultura na educação de um povo. 
Registro da visita. Gravamos tudo em video. Eu carreguei o equipamento.
É muito desanimador olhar para nossa cidade com tanta história cultural, relíquias que dinheiro algum poderá comprar ou corromper, ser simplesmente demolida pela ganância de interesses financeiros e políticas urbanas equivocadas. Homens que deveriam levantar a bandeira do Rio de Janeiro com orgulho, levantam a poeira das demolições em nome da vaidade e da cobiça, sabedores da sua impunidade. Não sei qual será o futuro do prédio do Museu do Índio no Maracanã e nem dos indígenas que lutam pelo resgate de seus direitos como  Povos Originários. Confio que a justiça seja feita nem que seja em ultima instância e credibilize os direitos dos verdadeiros donos dessa terra.



Educar  é mostrar a vida a quem ainda não viu. O educador  diz: “Veja!” – e , ao falar, aponta. O aluno olha na direção apontada e vê o que nunca viu. Seu mundo se expande. Ele fica mais rico interiormente... E, ficando mais rico interiormente, ele pode sentir mais alegria e dar mais alegria – que é a razão pela qual vivemos. 
Rubem Alves

10 de janeiro de 2012

Centro Cultural Indígena - Vida na Aldeia Maracanã - Almoço Apurinã

A Aldeia Maracanã 
Estas fotos fazem parte de uma reportagem sobre a Aldeia Maracanã (http://zequinhabarreto.org.br/?p=14384) 
Ocupação "Aldeia Maracanã" no terreno do antigo Museu do Índio, edifício ao fundo da imagem.  Foto: Renan Oliveira. (http://zequinhabarreto.org.br/?p=14384) 
Afonso Apurinã, que está desde o início da ocupação, com o estádio Maracanã ao fundo. Foto: Renan Oliveira. (http://zequinhabarreto.org.br/?p=14384)
Urutau Guajajara, mestrando em linguística na Uerj e professor da língua Tupi na ocupação do Museu. Foto: Renan Oliveira.((http://zequinhabarreto.org.br/?p=14384)
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O vídeo abaixo, capturado no YouTube (há muitos outros), mostra a gastronomia apurinã e a presença da vegetação na Aldeia Maracanã, fundada por indígenas de várias etnias, localizada no Rio de Janeiro, no bairro do Maracanã.
Resenha
Quem passa e olha, não vê a beleza dentro do Centro Cultural Indígena. Ali existem várias espécies de plantas medicinais e outras que os próprios indígenas plantam e colhem para o seu dia a dia. As ocas estão presentes, e isso é fácil de ser comprovado quando falamos com várias etnias neste espaço cheio de paz! Na Aldeia Maracanã uma vez por mês tem a contação de história, que é apreciada por todos que ali passam, inclusive tem até mesmo o Teatro de Bonecos para o público infantil. O almoço normalmente é o peixe feito na folha de bananeira pela etnia Apurinã. Como se pode ver, o Centro Cultural Indígena está cada vez mais presente na vida daqueles que sentiram o gosto pelo verdadeiro conhecimento de nossa história e nem os livros contam.