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28 de maio de 2012

De Duque de Caxias a Tijuca - por que tantas pessoas vivem nas ruas?

Natalia do Vale Lopes
Não me pergunte quem sou e não me diga para permanecer o mesmo.
Michel Foucault

Acordo às quatro horas e quarenta minutos, escovo os dentes, tomo um banho para despertar, me arrumo e vou para o ponto na esquina da minha rua para pegar o ônibus da linha Ana Clara/Central de cinco e meia, que me deixa na rodoviária, ao lado da Central do Brasil. No caminho, vindo de Duque de Caxias, pela rodovia Washington Luís, a saída para a avenida Brasil é sempre demorada, devido ao engarrafamento. Ao chegar ao ponto final, desço do ônibus e ando por uma rua onde tem o Restaurante Popular e me espanto por ver tanto ser humano a mendigar, sem ter teto para morar. Pego o trem parador na Central da linha Bangu, Deodoro ou Santa Cruz, desembarco na estação Praça da Bandeira, cansada subo a passarela e percebo que as pessoas ali andam depressa, talvez pelo medo serem assaltadas. Ando um pouco mais e chego ao meu destino: o Instituto Superior de Educação do Rio de Janeiro, localizado na rua Mariz e Barros, no bairro da Tijuca.
No Centro Cultural Oscar Niemeyer, construído em 2004,  existem duas bibliotecas públicas, uma para crianças e outra para adultos. As bibliotecas possuem 764 metros quadrados de área e 11 mil livros. Segundo a Secretaria de Cultura, cerca de 400 pessoas por dia, de todas as escolaridades, utilizam o espaço, de segunda a sexta-feira, das 9h às 19h, e aos sábados, das 9h às 13h
População de rua, que corresponde a 70% dos usuários do serviço, à porta do bandejão | Foto: Paulo Alvadia / Agência O Dia
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Porque tantas pessoas vivem nas ruas
          A vida das pessoas que moram nas ruas não é fácil. Esses indivíduos que fazem das praças, dos viadutos, dos becos suas casas, não estão ali por acaso ou simplesmente porque querem morar nas ruas. Resistindo ao calor, à chuva, ao frio, com certeza alguma situação os levou a esta triste realidade. Como julgar que tais pessoas não merecem uma oportunidade de melhorar suas vidas, ter um trabalho digno, um lar que lhe ofereça conforto?
          Os motivos pelos quais elas estão morando nas ruas são os mais diversos. Desde os problemas ocasionados pelo uso de bebidas ou drogas, falta de trabalho (sem poder pagar o aluguel mesmo de um barraco), desilusão familiar, amorosa, vício da bebida ou das drogas. Numerosos podem ser os motivos.
        As nossas cidades estão com cada vez mais pessoas que passaram a adotar as vias como moradia. Na cidade de São Paulo, por exemplo, de acordo com um levantamento realizado pela Prefeitura, existem 13.000 pessoas morando nas ruas da metrópole. São muitas pessoas que cotidianamente vivem o sofrimento e as humilhações. Cidades como o Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Fortaleza e muitas outras estão repletas de pessoas perambulando e dormindo nas calçadas, praças e outros locais. As ações dessas cidades em acolher e mostrar alternativas para essas pessoas são totalmente inadequadas, ineficientes e nunca são tratadas com seriedade. Existem, inclusive, notícias de cidades que retiram os seus mendigos e os devolvem para as suas cidades de origem, ou os retiram de determinados locais e os colocam em outros isolados. Os governantes parecem ter vergonha deles, mas nada fazem para ajudá-los. Ao contrário, os impedem de ficarem onde estão.
          Até pensamos que fazemos a nossa parte como cidadãos, mas infelizmente não temos tempo para realmente ajudar esses sujeitos. Tirando algumas poucas pessoas, algumas instituições e um pouco do poder público que lhes oferecem algumas ajudas de emergência como comida, banhos e dormida em quantidade extremamente reduzida, ninguém lhes estende a mão dando-lhes uma oportunidade para começar ou recomeçar a vida.
          Em algumas cidades existem albergues oferecidos pelas prefeituras, onde as pessoas recebem comida, roupas e uma cama para dormir. Ali, são obrigados a seguir horários fixos, tomar banho, trocar de roupa e não beber. De manhã, devem acordar e voltar para a rua. "Logo cedinho já vêm os homens cutucando e mandando a gente trabalhar", reclama o baiano Eginaldo Barreto Cruz, cantor, dançarino e, atualmente, catador de papelão. Ele também alega falta de higiene em certos albergues: "Sujeira a gente ainda ignora, mas pulga não dá".[1]
          Mesmo assim, são poucos os moradores de rua que não recorreram pelo menos uma vez a um albergue, numa noite fria. Os candidatos ao pernoite têm de amargar uma demorada fila de espera do lado de fora. E, com essa frequência esparsa, a tendência é reproduzirem lá dentro alguns padrões da rua. Como têm de dormir em salões enormes, com até 60 camas, não são raros os roubos, discussões e brigas. Não há dados oficiais que contabilizem essas ocorrências, mas a maioria acaba sendo resolvida entre eles mesmos.
         Promover de fato a reintegração dos moradores de ruas à sociedade e resgatar a suas identidades há muito perdida não é tão simples assim. Muitos não conseguem voltar ao seu modo de vida anterior junto à sua família, devido ao vício ou à perda de memória. Porém, alguns não se acostumam com a vida de mendicância, e esperam a oportunidade de serem reintegrados à sociedade ou reencontrar suas famílias. O triste é quando a família não os aceita de volta.
         No Rio de Janeiro, o projeto "Ao encontro dos meninos em situação de rua", da Fundação São Martinho [2], identifica as principais demandas das crianças e jovens de rua, com o objetivo de oferecer uma alternativa de desenvolvimento e proteção especial de média e alta complexidade para o público-alvo atendido. Em 2010, o projeto proporcionou atividades e atendimento social para 317 crianças e jovens. Dessas, 53 foram encaminhadas para o abrigo e 9 reintegradas às suas famílias. O projeto funciona no Centro Socioeducativo, situado na Rua Riachuelo nº 7 – Lapa.
           A Findação São Martinho é uma instituição séria que tem comprometimento com esses jovens moradores de rua. Nesse mesmo local, funcionam o Núcleo de Informação e Formação, o Centro de Defesa Dom Luciano Mendes de Almeida e o Mundo do Trabalho – Inserção.
         È preciso que o governo, as famílias e nós, cidadãos, saiamos da nossa omissão para ter um olhar mais humano para essas pessoas e efetivamente ajudá-las. 
Programa de estágio
Informações: formacao@saomartinho.org.br
As vagas são oferecidas no primeiro semestre de cada ano e o número de vagas é de acordo com a necessidade do projeto. A seleção acontece no mês de março e os alunos que tiverem em nosso banco de currículos serão comunicados do processo.
Oportunidade de trabalho 
Envio de currículo: administracao@saomartinho.org.br
Notas
[1] No olho da rua, da série Profissão: Brasileiros, do SESC/SP, de jan/fev 2004. Para ler o artigo na íntegra, clique aqui. 
[2] Para saber mais, clique aqui.

2 de abril de 2012

Em frente ao Instituto de Educação tem uma sapataria

Maria Lúcia Villan
          Em frente ao Instituto de Educação, na rua Mariz e Barros, no Rio de Janeiro, há uma sapataria, onde trabalha um rapaz simpático. Sou uma professora aposentada pelo Instituto, onde estudei e trabalhei por vinte anos. Fico imaginando o que se passa na cabeça desse rapaz. Como será que ele vê o meu colégio?
          - O senhor trabalha aqui há muito tempo e nunca entrou no Instituto de Educação. Como imagina que ele seja?
          - Imagino que ele seja bem grande. Afinal, foi criado para oferecer um ensino de qualidade e sempre foi referência na educação brasileira. Sei que o nível caiu um pouco. Na opinião de um modesto trabalhador, sei que ali falta tudo, principalmente respeito, salários dignos e condições de trabalho.
          - Mas o senhor colocaria seus filhos no ISERJ?
       - Sim, já tentei colocar meus filhos por três vezes e não consegui. O ISERJ é uma escola de tradição e ofereceria condições para meus filhos terem uma profissão.
          - Como o senhor imagina a relação entre alunos, professores e a comunidade?
          - Acho que a comunidade deveria participar mais da vida da Instituição.
***
          Este diálogo é fruto da minha imaginação, mas bem poderia ser verdade. Inventei-o enquanto olhava as sandálias na vitrine... e tentava adivinhar o destino daquele lugar pois sei que a sapataria irá cerrar para sempre as suas portas. O que será do rapaz simpático?
Van Gogh. Sapatos, 1888-9.

22 de março de 2012

Um mendigo enfurecido passava pela Rua Mariz e Barros

Bruno Alves
Fotos de Apollo Natali na coluna Desabafos de um Ancião
Um mendigo enfurecido passava pela Rua Mariz e Barros em frente ao Instituto Superior de Educação do Rio de Janeiro quando – ao contemplar o prédio antigo – acalmou-se, e sentiu uma vontade irresistível de entrar. Mas como poderia passar pelos seguranças sem ser notado? Sorte que, em sua bolsa, havia uma blusa e calças limpas que havia ganhado há poucas horas. Finalmente , encontrava utilidade para o presente. Dirigiu-se ao posto de gasolina mais próximo e pediu para utilizar o banheiro. Um dos frentistas, mesmo receoso, permitiu que ele entrasse. Lá conseguiu um sabonete velho, o que colaborou para amenizar o seu mau cheiro. Agradeceu ao frentista e voltou ao antigo prédio.
O horário, o mendigo não sabia ao certo, mas acreditava ser por volta das quatorze horas. Disfarçadamente conseguiu entrar no ISERJ sem ser visto e foi impulsionado até a biblioteca. Quando entrou ficou surpreso com a figura de uma mulher fixada na parede, e aproximou-se dela. Tinha a sensação de conhecê-la há muito tempo. Começou a balbuciar algumas palavras como num profundo transe: “Teu canto é perdido, pássaro da lua...”. Lembrou o nome do poema, "Pequena Canção", do livro Viagem Vaga Música de Cecília Meireles, a mesma mulher que o sondava profundamente e que estava presa na moldura envelhecida. Cecília era sua companhia de horas e horas de deleite em noites chuvosas. Naquele momento, resgatou a sua memória perdida.
O seu nome era Antônio Maciel de Medeiros, um homem erudito, apreciador da renomada poetisa. Cursou Letras na antiga Universidade do Brasil, atualmente UFRJ, e doutorou-se na mesma instituição em Poética. Ele era pai de João Gabriel e esposo da pediatra Marisa Montenegro que desafortunadamente haviam falecido num trágico acidente de carro no Flamengo, o que levou Antônio à loucura. Quanta angústia e sofrimento! Por um instante ele quis correr, gritar e voltar a ser aquele velho mendigo, imune ao sofrimento da perda. Mas Cecília convidou-o ao recomeço. Através do olhar da fotografia, ele pode ver um filme que contava a história do Instituto de Educação. Sentiu que Cecília queria fazer-lhe uma revelação.
Viu que na inauguração do Instituto estavam presentes Dom Pedro II e a imperatriz Teresa Cristina, surpreendeu-se ao saber que a escola começou funcionando no Colégio Pedro II e que somente em 1930 passou a funcionar no prédio atual. A cada cena uma surpresa diferente. Descobriu que Anísio Teixeira foi o primeiro diretor da instituição e que Heloísa Marinho, Evanildo Bechara, Sérgio Buarque de Holanda e inclusive ele – para o seu espanto – tinham sido professores da renomada escola.
Ainda em transe, Antônio foi abordado por um dos seguranças da instituição, mas conseguiu sair do Instituto Superior de Educação do Rio de Janeiro ileso. Sabia que aquele encontro havia mudado a sua vida, mas o que fazer? Por onde começar? Seguiu rumo ao tempo, a fim de resgatar o que a vida havia lhe usurpado. Precisava recomeçar, por mais difícil que fosse. Encontrou uma pessoa que lhe estendeu a mão.
Hoje Antônio trabalha como voluntário em uma ONG, com alfabetização de Jovens e Adultos, além de ter conhecido Marisa, a mulher que vem tornando os seus dias mais felizes.

24 de agosto de 2011

Leitura da cidade - dois textos

A SINTAXE DAS RUAS
Fernando Stickel
Marcio-André
A rua é uma escrita e como toda escrita tem sua sintaxe. Mas o que me faz pensar que a rua seja uma escrita? Para o Professor Emmanuel Carneiro Leão, a Viagem é a linguagem da paisagem; Uma paisagem é a linguagem das vias. Nesta perspectiva, a rua seria a linguagem das casas. Uma rua não é propriamente um lugar material. Não é, como lembra Boaventura, o avesso das casas, mas um espaço interstício que só existe em movimento. Uma rua só tem sentido como possibilidade de caminhada e possibilidade de um destino. Não há estrada que não leve a parte alguma — mesmo uma rua sem saída e sem prédios leva a algum lugar no qual muitos já precisaram ir. 
Para ler o artigo na íntegra, clique AQUI (CONFRARIA DOS VENTOS)

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Representações da imagem do centro de Porto Alegre
Um estudo sob a ótica de Kevin Lynch 
Leonardo Fitz

          No romance As cidades invisíveis, Italo Calvino faz uma análise social da urbanidade e do viver humano refletido nela – talvez nunca antes observado na literatura não-científica. Mas não é inteiramente correto afirmar que o livro relata apenas as cidades, ou a cultura de assentamentos humanos. Marco Pólo, viajante veneziano, descreve as fantásticas cidades do império mongol de Kublai Khan. Sua descrição, perspicaz e pessoal, nos ensina um pouco sobre como o homem vive, não propriamente na cidade, mas com os sentimentos mais arraigados da existência humana. Entre o sonho e a realidade, ambigüidades se replicam numa leitura concisa, que, de certo modo, caracteriza a cidade como um sólido e poderoso significado expressivo de edificação de uma sociedade e de sua cultura.
        [...]
         Assim como Marco Pólo, todos que freqüentam uma cidade (e principalmente aqueles que constituem a própria cidade) fazem uma leitura visual da paisagem urbana. A cidade, nesse momento, basta ser entendida como uma construção no espaço que pode ser percebida no decorrer de longos períodos de tempo e onde cada cidadão possui pontos de associação com algumas [de suas] partes [...], através de seus sentidos, suas lembranças, seus sentimentos e impressões vividos diariamente num ambiente citadino. 

A cidade não é apenas o que existe fisicamente, mas tudo aquilo imaginado pelas pessoas.
Confira quatro diferentes leituras do centro de Porto Alegre.
Para ler o artigo na íntegra, clique AQUI (VITRIVIUS)