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9 de julho de 2020

ENCONTRO!


Cristina Muniz
Passeio bom não se faz sozinha!  Talvez por isso, como professora, sempre gostei de passear com crianças. Parque da Catacumba. Quinta da Boa Vista. Praia de Copacabana. Parque de Madureira. Alguns lugares escolhidos pelas crianças, outros por mim. Foi no meio dessas escolhas, que ir a um Shopping do subúrbio apareceu como uma proposta das crianças moradoras e frequentadoras desse shopping. 
Nunca gostei de shopping, uma caixa de vidro rodeada de vitrines que convidam a entrar e consumir aquilo que a gente nem precisa. Uma ilusão de passeio – é como vejo esse lugar. Mas as crianças, não. Dizem que no shopping dá para correr, para brincar e quem não conhece, aprecia! Uma professora pesquisadora, crítica do consumo, concordaria em levar crianças para passear num shopping? Nem pensar! Mas também como assim? Uma professora pesquisadora não ouviria as crianças? Nascida e criada num bairro de classe média da zona sul do Rio de Janeiro, resolvo aceitar a proposta das crianças e no último fim de semana das férias escolares, querendo acreditar que pudesse encontrá-las por lá, vou ao Shopping do subúrbio. Sozinha.
 Já no trajeto de metrô entre a zona sul e a zona norte, fico ali meio perdida a observar.  Crianças sentam-se no assento preferencial e uma senhora bem vestida reclama muito da falta de educação. Quando vai saltar, ainda na zona sul, chama outra senhora mais distante para ocupar o seu lugar, ignorando outros idosos não tão bem vestidos ali ao lado. Embora sendo um trilho só, o trem da zona sul não vai até o subúrbio, e é preciso trocar de trem. Já na linha zona norte, crianças pedem ao pai para se sentarem, e lhes é oferecido o assento preferencial – todos parecem concordar pois estão muito cansadas. Uma moça a quem peço informação se oferece para me levar ate a entrada do Shopping, pois vai saltar naquela estação. 
Chegando lá, vejo muitas crianças, todas acompanhadas de suas famílias. Observo por um tempo uma família com um menino que me chama a atenção pelo seu fascínio com a escada rolante. Deram muitas voltas na praça de alimentação, até que se sentam para comer. Na praça, três crianças brincam de pique entre as mesas, sob o olhar atento dos pais, e ninguém reclama – sim, dá pra correr e brincar no shopping.  Sigo pelos corredores das lojas e me vejo diante de algumas vitrines apreciando... Há mais jovens do que crianças contemplando as vitrines. As crianças, em geral estão de mãos dadas com os pais, pois o shopping está bem cheio neste sábado. Chego até um espaço cercado e com brinquedos, com poucas crianças, a um custo de 14 reais por 15 min de uso. Uma placa com tantas normas que só de ler ficamos inapetentes para brincar. 
Depois de muito rodar por ali, sento no meio da praça de alimentação para comer e vejo um menino que passa vendendo algo pelas mesas e, tão rápido como apareceu, sumiu. Eu o procuro com os olhos, me perguntando como ele está ali a vender balas ou algo assim – atividade proibida em qualquer shopping... Logo ele entra no espaço onde estou e passa pela minha mesa com uma bandeja na mão, vai se sentar atrás. Não olho ainda, reparando no homem que, sentado com a família ao meu lado o encara com desprezo. Isso se passa até essa família se levantar e sair, e ainda saindo o homem continua encarando o menino, suponho, pois não me virei para vê-lo ainda.  Só quando a família sai, volto-me para trás e vejo o menino com a bandeja sentado no banco. Vou até ele pensando que sua aparência e performance ali de alguma forma interrompe a narrativa que se espera de quem frequenta a praça de alimentação de um shopping: 
- Não quer sentar na mesa?   
- Não, aqui tá bom, diz ele, olhando aflito em volta.
- Acho que foi por isso que o homem te olhou daquele jeito. Você pode sentar na mesa pra comer melhor.
- Não ligo não, pode me olhar como quiser, estou vendo os seguranças. Eles não deixam vender aqui.
- Vem sentar na mesa comigo, podemos conversar? Ele aceita.
Conto que vim tentar encontrar as crianças que me inspiraram a passear naquele shopping. Confesso que era a minha primeira vez ali.  
- Você veio daonde? 
- Vim de metrô, de Copacabana. A gente troca de linha e salta quase aqui dentro. 
- Você veio da zona sul? Não teve medo de vir pra cá? Qual estação? 
- Cantagalo.
- Já ouvi falar, tem também o Pavão e Pavãozinho, né?
- É. Já trabalhei lá.
- Queria mesmo é conhecer a Rocinha, deve ser bacana ver o mar lá de cima!
Serginho se apresenta me dando seu contato do Facebook. Pergunta meu nome, pois não aceita qualquer um no seu Face. Deixa muito do que está no prato, bastante arroz, feijão e um pedaço de frango. Quando lhe pergunto se não vai comer, ele diz que não estava com fome, mas quando pediu dinheiro em uma mesa, a pessoa foi até o restaurante e fez esse prato. Não perguntou a ele o que queria, ou se queria comer, avalio. O cardápio parece dizer também de um presumido quanto ao outro que se supõe carente de alimento, e lembro-me do samba da Tuiuti vencedor do carnaval este ano: “... ao me dar escravidão e um prato de feijão com arroz!”.
Ele conta de sua vida, fala das favelas da zona sul e de onde mora e circula, no Jacarezinho e na Mandela, duas favelas ali do entorno. Demonstra ainda conhecer tudo sobre as facções do tráfico, trabalho para o qual já foi convidado pelo namorado da tia. Saiu da escola este ano na sexta série, mas gosta de matemática, história e educação física. Sua mãe teve que ir embora depois de um trágico acidente, e ele fica cada dia na casa de um parente. Alguns gostam dele, outros não. 
- Você vende o que? Bala? 
- Hoje não vendi nada. O mercadão estava fechado, mas fiz 60,00 reais, mostra tirando do bolso, orgulhoso, as notas dobradas entre os dedos. 
- E como fez esse dinheiro? 
- Eu falo assim: intera para pagar um lanche?
- Ah. E você tem planos para essa grana? 
- Sim, vou juntar até cem e colocar aparelho no dente.
- Mas cem reais dão pra colocar aparelho?
- Lá no morro dá!
- Pra que? Seus dentes são lindos!
Ele sorri largo e diz que, então, vai comprar um tênis da Nike, pois na favela dá para comprar também.
- Serginho, o que você gosta no shopping? 
- Não, eu venho vender ou pedir dinheiro.
Insisto, lembrando o que as crianças falaram sobre o “apreciar” e ele diz que não dá para curtir sem dinheiro, pois tudo tem que pagar. Nessa hora, olha os cartazes dos filmes bem à nossa frente e diz que quer ir ao cinema. Vamos comprar seu ingresso, mas ele não consegue entrar. Estava sem documento. Desiste.
Anuncio que vou embora e ele faz questão de me acompanhar até a entrada do metrô.  Ali, no miúdo desse encontro, sentados à mesa por alguns momentos, trocando olhares e conversas sobre a vida, sinto um vínculo concreto que nos une na igualdade de uma comunidade possível. Com esse sentimento, vou caminhando com esse menino até a entrada do metrô. Nos abraçamos. Serginho me espera entrar e diz: cuidado! Vai com Deus!
Este menino da foto vive no Amazonas (fonte Portal do Zacarias). A foto das caixas de sapatos está no Facebook. A favela da foto é do Cantagalo, fotografada por um estudante australiano, Sam Faigen, e encontra-se no site do RioOnWatch.

Cristina Muniz é coordenadora do Laboratório Brinquedoteca do Instituto Superior de Educação (Iserj). Autora da tese "Passeios com crianças: cidade em tensão", acessível no site www.proped.pro.br

5 de junho de 2020

INFÂNCIA CRÔNICA

Sabe pouco quem só estuda dos livros e não olha o mundo. O pessoal que escreveu este livro não poderia estar mais longe disso. Estudiosos sérios das relações entre as crianças e a cultura, os autores destas crônicas saíram à rua, lançando ao tal mundo contemporâneo um olhar infantil no melhor sentido, curioso, comovido e perplexo. Acabaram conseguindo iluminar coisas que, de tanto ver, a gente às vezes já nem enxerga mais. Nessa atenção ao aparentemente miúdo, como as crianças que eles descobrem nas beiradas da cidade, fica nítida inspiração de Walter Benjamin, raras vezes seguido tão pra valer como aqui.
Eles escolheram traduzir esse olhar na forma de crônicas – gênero que recorda o tempo vivido, compondo, um a um, pedacinhos de mosaico. E assim nos fazem lembrar o que dizia outro mestre, Antônio Cândido: “o tempo é o tecido de nossas vidas”. Ouvindo histórias nos ônibus e trens, acompanhando as cenas urbanas em calçadas e esquinas do Rio, os autores aguçaram a escuta e o olhar para as crianças pobres, cuja infância está sendo vivida hoje do jeito que dá e à margem da barbárie, porque elas só têm o hoje para serem crianças. 
Nós, pesquisadores da infância, costumamos dizer que a primeira tarefa dos educadores é educarem a si mesmos. Sim, porque é estranho pregar uma educação imaginativa sem cultivar nossa própria imaginação, assim como é estranho defender retoricamente os direitos das crianças ao mesmo tempo em que se desvia o olhar das meninas e dos meninos que vendem balas e panos de prato pelas avenidas do nosso país. Na escuta acolhedora a alguma dessas crianças, ensaiando novos olhares e linguagens que pudessem dar conta da intensidade humana desses encontros, e explorando as veredas da literatura também pelo lado da autoria, os pesquisadores do grupo Infância e Cultura Contemporânea nos dão aqui mais uma generosa lição: mostram o que pode a sensibilidade aliada à indignação, neste tempo hostil à poesia, à  arte, à liberdade – hostil à infância, portanto. Na primeira pessoa vigorosa que se faz ouvir nos testemunhos éticos e estéticos aqui reunidos, seus autores dizem às crianças que os povoam:
“Estou aqui. Agora. E te vejo.”
Gilka Girardello 
***
A pele que habito 
Núbia Santos 

Caía a tarde. O Sol já ia abaixo e, embora o vento mais frio que vinha do belo mar de Copacabana já manifestasse seus efeitos, ela estava vestida apenas com uma blusinha de alça fina e um short. Era a maior das duas. Seria irmãs? Caminhava entre as mesas falando baixo com os clientes do quiosque. Não levava nenhum minuto em cada mesa e já saiu em direção à outra... Aparentava oito anos deidade e segurava uma bolsa embaixo do braço. Andava devagar.
Crianças abordando turistas em Copacabana desde há muito passou a ser uma cena corriqueira. Os desfechos são sempre os mesmos: ou damos alguma moeda ou negamos e elas se vão. Como clientes do quiosque, eu e minha amiga do Sul, sentadas em uma das mesas, observávamos aquelas duas crianças. Tento me concentrar no cardápio, mas não consigo tirar os olhos daquela menina e de sua suposta irmã. Não por acreditar que havia algo inusitado naquela cena, mas pelas cicatrizes profundas de queimaduras que cobrem seus dois braços e prendem minha atenção. Seus braços parecem mais finos e desproporcionais em relação ao corpo.
Cicatrizes sempre revelam alguma dor passada, tanto aquelas herdadas das estripulias da infância, cuja dor física dura menos que a brincadeira que as causas, quanto aquelas até necessárias, provocadas por cirurgias, por exemplo. Mas cicatrizes de queimaduras sempre revelam alguma situação que talvez pudesse ter sido evitada, e os olhares de alguns clientes pareciam demonstrar isso. Olhares que se demoram, mas a cabeça é sempre rápida no desviar, como se fosse impossível olhar sem imaginar uma certa dor. Percebo alguns apontando, escuto comentários, lamentações... “Coitada!”. Outros baixam os olhos quando as meninas chegam perto.
[...] 

A feira 
Patrícia Trindade 

Toda segunda, ao amanhecer do dia, feirantes já estão em plena atividade para preparar a barraca, assim de que o freguês aprecie e compre. Os grandes caminhões chegam bem cedo, roncam sob as janelas dos apartamentos, o vozerio perturba o sono matinal dos vizinhos. O que não tem a menor importância: na atual situação do mundo, é bom que todos estejam acordados. Além disso, deve subir até as janelas a fragrância das frutas e de todas as coisas nascidas da terra, ainda frescas, vivas e coloridas. Entre caixas e caixotes, passa gente indo e vindo da feira.
            A feira aqui perto de casa movimenta a rua, com tanta gente que passa. Vozes, ruídos, imagens e desejos se oferecem a produzir a dinâmica da feira livre. As barracas vão sendo arrumadas de maneira que o freguês possa contemplar todos os produtos, um chama dali, outro grita daqui, refletindo esse cotidiano que se inventa de mil maneiras. “Sacão é dois!” “Moça bonita não paga, mas também não leva”, “Freguesa, laranja docinha como mel”, “olha o troco!”. 
[...]
As crianças e a xepa lembraram-me dos versos de Gonzaguinha: 
Você deve notar que não tem mais tutu 
E dizer que não está preocupado 
Você deve lutar pela xepa da feira e dizer que está recompensado 
Você deve estampar um ar de alegria e dizer tudo tem melhorado 
Você deve rezar pelo bem do patrão 
E esquecer que está desempregado 

Objeto de museu 
Patrícia Desterro 
Quem visitava o Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, de segunda a sexta-feira, podia ouvir, já da entrada, o burburinho da criançada. Subindo as escadarias de mármore, logo após passar pelo meteorito de Bendegó, as crianças encontravam algo que mexia com elas. Não havia uma que lhe fosse indiferente. Em meio a tantas maravilhas, a objetos de culturas passadas, estava lá algo que para os adultos servia para um descanso breve, mas que convidava as crianças para algo mais. 
Não sei se era pela cor vermelha ou pela forma, mas ele atrai a atenção das pessoas de pouca idade. Era uma maravilha de se ver. Alguns adultos tentavam contê-las, mas não era coisa fácil e talvez fosse algo impossível.
[...] 
Atenção com a escada! Vamos ver o que tem lá em cima. Pessoal, atenção aqui! 
Podem sentar-se aqui! – Fala um mediador, apontando para o banco. Como disse, era apenas um banco vermelho, mas ele despertava algo nas crianças. Elas não aceitavam que aquele banco, que fazia uma angulação das extremidades, não fosse um escorrega. Ora, bolas! Como não?! 
[...]

Trechos do livro Infância crônica organizado por Raíza VENAS e Rita RIBES e publicado pela Nau Editora, em 2019, no Rio de Janeiro. 

11 de março de 2020

Kupa kawana


Kupa kawana
Tatiany Gomes

O céu está no chão
E esse chão é o mar
Chão que eu não posso pisar
As estrelas olhando para si mesmas sorriem, são narcisistas?
Não...
É só o espelho que é esse mar.
Nos dias nublados, quando o choro do céu toca as ondas do mar,
tudo se mistura.
Olhando o lago, o vai-e-vem das ondas,
a brisa do mar e o cheiro salgado...
"Olhando o lago" é o que significa o seu nome em Quechua.

Que um cego poderia enxergar.
Ao entardecer as aves pairam sobre as partes de terra desse mar,
em busca dos alimentos que as pessoas deixam por lá.
Sentada olhando pro mar, vejo sua beleza, sua força e sua revoltura.
Sentada se olhar para trás vejo prédios espelhados,
roubando o brilho do mar.


Kupa kawana



Considerações
A palavra "Copacabana" é de origem quechua, e significa “olhando o lago”. A palavra original é kupa kawana. A Virgem de Copacabana foi talhada por um índio chamado Tito Yupanqui, nos anos 1600. A imagem, chamada de Nossa Senhora Candelária, foi colocada na margem do lago Titicaca, onde permanece até os dias de hoje. O povo indígena da região começou a chamá-la de Nossa Sra. Copacabana, “aquela que olha o lago”. Quando uma réplica foi trazida para Rio no final do século 17, por um comerciante português, já chegou com o novo nome, batizando a Freguesia da praia do Forte, de freguesia de Copacabana. Hoje é uma praia e um bairro de Rio de Janeiro.

“Felizes são aqueles que não roubam nada, e atrás dos prédios, atrás das ruas, lá do alto"
Menção aos morros: Pavão Pavãozinho e Ladeira dos Tabajaras.
                                                                          
“Debret descreveu a parte terra e a parte de mar”
O primeiro plano, formado pelo prolongamento das montanhas que beiram a costa do Rio de Janeiro, permite verem-se as pequenas ilhas e bancos de areia que assinalam a sua proximidade. Vê-se no meio da areia a pequena igreja de Copacabana, isolada num pequeno platô: à direita um segundo plano formado por um grupo de montanhas entrando mar a dentro esconde a sinuosidade do banco de areia cuja extremidade aparece com a sua parte cultivada tão reputada pelos seus deliciosos abacaxis. Aí se forma a embocadura de um pequeno lago alimentado pelas águas do mar em maré alta.
— Jean Baptiste Debret - França – 1834

17 de março de 2016

Pilares para a Educação

Lá vou eu saindo da vila Esperança.
Caminhando tranquila e atenta. Com a mente calma e alerta.
Passo por eles que ouvem “Soldado do morro”, e tento compreender a realidade deles. Daí percebo que esta é, também, a minha realidade.
Mas hoje desci sem ouvir nada. Estava querendo ver.
Gostaria de fotografar,
mas não são todos os locais que eu ousaria carregar uma câmera.
Passei pela família “Peppa Pig”.
Um leitão – maior que muito marmanjão por aí –, uma leitoa e seus filhotes.
Estavam descansando, ainda era cedo.
Mais embaixo estava um jovem preto magrelo,
fazendo de sua “nove”, limpinha, um apito, ao assoprar o cano vazio.
Fui seguindo com os olhos bem abertos.
Observei que, na garagem da transportadora, tem uns tijolos vazados com desenhos quadrados. Normalmente vejo redonda a parte central do tijolo.
Observei, também, uma Santa Mãezinha olhando a Lua de São Jorge.
Tem uma casa de ração na esquina entre as ruas Edmundo e Soares de Meireles.
No muro tem uma linda imagem de São Jorge e seu dragão.
Larguei o dragão de São Jorge e segui para a linha do trem.
Aqui, o único Ramal que passa é o de Belford Roxo.
Atravessei o buraco da linha do trem – paredes quebradas para servir de passagem por cima da linha férrea – e cheguei numa Pilares suburbana, porém habitável.
E lá vou eu esperar meu 457 para ir ao Instituto de Educação.
Texto e foto de Michele Souza

31 de janeiro de 2015

Palácio dos Teixeira no Catete

Ivana Teixeira da Silva
Aprendendo no Palácio do Catete, observa-se a edificação de seu prédio (1858-1866) com arquitetura neoclássica. Em suas dependências funcionam uma livraria e um cinema. Vale ressaltar um imenso e lindo jardim, palco de inúmeros encontros e desencontros.
Foto do site oficial do Museu da Republica
Foi erguido como residência da família do cafeicultor luso-brasileiro Antonio Clementino Pinto (Barão de Nova Friburgo). Após sua morte, seu filho o vendeu. Até que em 1897, no governo de Prudente de Moraes, passa a ser oficiosamente a sede do Governo Federal, considerado assim palco de diversas decisões políticas que marcaram nossa história.

Quando o barão suíço Von Tschudi visitou a região de Cantagalo, no estado do Rio de Janeiro, no século XIX, ao se referiu ao Barão de Nova Friburgo, lembrou de um provérbio brasileiro que dizia: Quem furtou pouco fica ladrão, quem furtou muito, fica barão. Em Nova Friburgo, Clemente Pinto possuía um pavilhão de caça (hoje o Sanatório Naval), um solar e um chalé no Parque São Clemente (hoje pertencente ao Nova Friburgo Country Club). Responsável pela chegada da linha ferroviária até Nova Friburgo, o barão, que era também um traficante de escravos, possuía uma grande fazenda em Cantagalo, além do Palácio do Catete.
O presidente Prudente de Morais, de 1894 a 1898, em retrato de Almeida Júnior
O Museu relembra o suicídio de Getúlio Vargas. Foto do pijama e da arma usados por ele na ocasião. Foto de Rafael Andrade, no site da Folha de São Paulo.
Aprendendo do Palácio do Catete, atenta-se para o chafariz, a natureza, o riacho, a ponte, a gruta, o silêncio, o barulho dos animais, dentre outros aspectos que compõem o jardim transmitindo sentimentos como paz, esperança, história, alegria, saudades...
 Clipes filmados pelo fotógrafo Paulo Resende em abril de 2009.
Neste jardim, ocorrem inúmeros eventos culturais, folclóricos, palestras e exposições. Mas uma em específico marcou a vida da minha família: “Insetos Gigantes”. Minha filha, Marcella, na época com nove anos, ficou apaixonada pelo jardim e seus insetos. Desde então, hoje com catorze anos, recorda com carinho deste lugar e sempre pede: “_Mãe, vamos passear no jardim dos insetos?”
A exposição "Insetos na Cultura Brasileira", entre 15 de janeiro a 14 de março de 2010, no Jardim do Museu da República, foi montada com material da FioCruz. Veja o filme promocional, extraído do site Ciência Hoje. 
Aprendendo o Palácio do Catete, vivencia-se um lugar histórico, importantíssimo para o entendimento do passado, transformação do presente e construção de um futuro melhor. Sobretudo este é um lugar que consegue traçar um eixo entre o antigo e o novo. Eventos como a exposição mencionada possibilitam uma aproximação entre o lugar  e os cidadãos comuns, afetando-os com uma experiência de República não só baseada na contemplação da história do país, mas pelo amplo usufruto dos espaços comuns.
A pequena Marcella, filha da família Teixeira, aproveintando a sua visita ao Museu da República.

Um dia, o lugar o Palácio do Catete foi a casa da família Pinto, depois dos Moraes, dos Vargas ... e hoje é dos Teixeiras e de todos os cidadãos desta cidade do Rio de Janeiro.
 

28 de janeiro de 2014

Rua dos inventos - aconteceu há 10 anos atrás


Internet tem dessas coisas. A artista Gabriela Gusmão já está em outra mas este seu trabalho merece ser revisto. Diz ela:

Por este ensaio, fruto de meus devaneios sobre o espaço público, registro um breve testemunho, detalhe na vastidão desse universo, retrato da utopia que alimenta minha crença na possibilidade de reconstrução da realidade pelo olhar transfigurado de um passante desatento às preocupações, mas alerta ao brilho do sol no canto da lata abandonada na esquina.

Da adversidade vivemos. (Hélio Oiticica)
A necessidade obriga. (Seu Veríssimo)
Aqueles objetos poderiam estar mortos, mas foram ativados pela dança muda da transfiguração da matéria-prima residual em genuína arte da sobrevivência. Tratam-se de atitudes baseadas em situações de necessidade extrema, exercidas em caminhos cotidianos surpreendentes, através de peculiares formas de tecnologia.

Deseduquei minha visão a ponto de me ocupar, principalmente, de 'inutilezas' ou "grandezas do ínfimo", como diz o poeta Manoel de Barros com sua graça verbal. E procurei colher, na rua, imagens de uma evidência quase invisível. Arranjos de objetos achados, improvisados ou inventados para desenhar a realidade inadiável, a cada dia.
***
O site Viva Favela  apresenta um bom resumo do que foi a sua exposição
Em busca de uma ideia para sua monografia de conclusão do curso de graduação no departamento de Artes e Design da PUC-Rio, a fotógrafa andava distraída na rua quando viu um homem com uma vara na mão e um copo pendurado na ponta. Ao perguntar o que significava aquilo, ele contou que era para chamar a atenção dos motoristas e evitar ser atropelado novamente. Aquilo a surpreendeu e ela decidiu. Tinha encontrado um belo tema para seu projeto. 
Muitos objetos escolhidos fazem parte do cotidiano. Só que ali ganharam um novo conceito e utilidade. Como a 'carroça-casa', um dos destaques da exposição. O veículo tem armário, retrovisor (com CDs como espelho), fogão de duas bocas na parte de trás, bujão de gás e uma torneira com água. Outra invenção interessante é o eletricafezinho, um caminhãozinho usado para vender café, chocolate, cigarros, balas e cartão de telefone. (…) Outro invento que parece engraçado, mas que também provoca certo desconforto em quem o observa, são os óculos para 'suspensão de pálpebras caídas' de Dona Pequena. Ela, que não tem problema nenhum de visão, usa os óculos sem lentes. "Meu pai e meu irmão tinham esse problema nas pálpebras também. Já uso há pelo menos vinte anos e nunca me incomodou em nada. Às vezes, até durmo com eles", diz Dona Pequena.

Eu uso óculos sem lente porque não tenho nada nos olhos, graças a Deus. Agradeço a Deus que sou perfeita, né? Não tenho nada nos olhos, só tenho na pálpebra, que é caída um bocadinho. Meu pai tinha esse defeito e eu nasci assim. Eu para corrigir só uso esse aparelho. (Dona Pequena)
***
O livro está disponível em pdf. 

6 de janeiro de 2014

Rilke na Rodoviária do Rio de Janeiro

Quanto mais solitários houver, tanto mais solene, comovente e poderosa é a sua comunidade.
Rainer Maria Rilke
      
Foto O globo
         Para falar de rodoviária, às dez e meia da manhã, numa segunda-feira, no dia 30 de dezembro de 2013, é preciso olho, muita força de vontade e um lugar na janela já dentro do ônibus com ar refrigerado. Depois de vencida a fila errada para a impressão das passagens compradas na internet, a rampa de acesso às plataformas onde se espera e esperam-nos os ônibus, da sucessão de quente-morno-quente-frio, de alguns espirros pelas diferenças de temperatura, inicio a enumeração, a chamada dos rostos, dos gestos, dos sentimentos flutuantes pela multidão de mochilas, malas de rodas e sem, em filas várias, nas escadas rolantes, no banheiro, nos quiosques de biscoito, na loja de perfumes e na lanchonete.
       Nenhum rosto em particular me vem a não ser talvez o da atendente da companhia de ônibus que, em saltos altos, e com suas pernas muito finas em calças justas, correu para saudar um homem corpulento e bonachão, ao vê-lo sair de uma porta privativa. Ele estava de crachá, e tinha cara de dono satisfeito de um negócio que está indo muito bem. Ele olhou para baixo e retribuiu o sorriso da mocinha. Será um padrinho? Talvez  ele esteja perguntando “e você como está indo no seu novo posto?” Ao que ela responde “muito bem. Tudo isso é tão excitante.”
       Sim, um outro rosto chega agora, o da vendedora da loja de perfumes onde, inoportunamente, fui procurar um lápis de sobrancelha enquanto esperava meu companheiro de viagem à procura de informações sobre onde imprimir as nossas passagens. Quando perguntei pelo lápis, essa outra mocinha me olhou com cara de poucos amigos, não sei porquê. Retribuí o olhar, centrando meu foco entre as sobrancelhas dela. Já li que esse é um bom truque para baixar a bola de mal-humorados. Aparentemente funcionou pois rapidamente ela foi buscar o lápis no mostruário. “Tem tampa?”, perguntei. “Tinha.” E começou a abrir gavetas. “Desculpe, vou ficar te devendo.” “Não tem problema. O bom de querer comprar uma coisa inútil é que, se ela estiver em falta, não tem problema.”
Foto Tania Rego-Agência Brasil
     O rosto do vendedor de biscoito também se sobressaiu por um momento, quando lhe pedi para provar um biscoito de polvilho sabor queijo, depois de ter pedido para provar um de sabor natural. “Ah, moço, é só unzinho.” “É?” (Acho que ele me olhou entre as sobrancelhas.) “E se todo mundo pedisse uma provinha de tudo?” Então vem o rosto da moça da fila do caixa na lanchonete, que se virou para mim, logo atrás dela, quando uma menina postou-se à sua frente. Descaradamente. Com sua notinha de dois reais na mão levantada. “Menina”, disse eu, “tem uma fila”. E ela me olhou, humilde, e foi para trás. Depois vi a mãe dela com um bebê no colo e fiquei um segundo sem saber o que sentir.
Foto Tania Rego-Agência Brasil
     Agora o motorista se sentou em sua poltrona e girou a ignição de partida. A cena da multidão começa a me escapar. O detalhe dos quatro funcionários de empresas de ônibus, com o mesmo uniforme, de gravatas pretas e finas e camisas de algodão branca de manga curta, com sapatos fechados e calças escuras, pernas largadas sobre a pista, sentados no meio-fio de uma das plataformas de embarque, todos jovens e cor de azeitonas, cada um com o seu celular e seus pensamentos, essa imagem em particular faz com que a saída da rodoviária se dilua lentamente.
     Enfim, na rua, penso em Rilke. Na melodia das coisas, como ele chamou o pano-de-fundo no qual o eu e um outro se encontram. Sem essa melodia, não haveria um rosto sequer. Ouço-a. É ela que me faz  sentir pena por ser quase inexistente, ser surda para a música do silêncio. O som do motor do ônibus conduz meu olhar para a janela. Por mim passa um rosto e outro que agora não vejo mais porque estou já a caminho, na rua, com os pensamentos como carneiros ávidos para serem soltos do curral, doida para que a voz aguda de uma passageira se cale. Ela dificulta a gente olhar, ouvir a melodia das coisas, se despedir da rodoviária, da cidade, do ano e de todas as ausências. Mas vou tentar. Vou fechar um pouco os olhos, para abrir espaço de ver novas coisas, e parar de escrever porque agora isso também atrapalha o olhar, a despedida e a viagem até 2014.
Foto Cartummania
Bia Albernaz 
***
Trechos de A melodia das coisas, de Rainer Maria Rilke (trad. Cláudia Cavalcanti)

II. Não posso imaginar mais feliz sabedoria
do que esta:
que é preciso ser iniciante.
Alguém que escreve a primeira palavra atrás de um
secular
travessão.

XI. E a arte nada fez senão mostrar-nos a confusão na qual sempre nos encontramos. Ela nos inquietou, em vez de nos fazer silenciosos e calmos. E provou que cada um de nós habita uma ilha diferente; só que as ilhas não são distantes o suficiente para que permaneçamos solitários e despreocupados. Um pode molestar o outro, ou assustar, ou perseguir com lanças – mas ninguém pode ajudar o outro.

XVI. Seja o canto de um candeeiro ou a voz da tempestade, seja o respirar da noite ou o gemido do mar que o rodeia – sempre desperta por trás de você uma vasta melodia, tecida por mil vozes, na qual só aqui e ali há espaço para fazer um solo. Saber quando é a sua vez – eis o segredo da solidão. Assim como a arte do verdadeiro relacionamento é deixar-se cair do alto das palavras naquela melodia compartilhada.

XVIII. Nós, no primeiro plano, somos bem assim. Benditos desejos. Nossas realizações acontecem longe, em fundos luminosos. Lá existe movimento e vontade. Lá se passam as histórias, de que somos a obscura epígrafe. Lá está nosso encontro e nossa despedida, consolo e tristeza. Lá estamos nós, enquanto caminhamos no primeiro plano.

XXI. Se quisermos, portanto, nos iniciar nos segredos da vida, é preciso pensar em dois aspectos: Um deles, a grande melodia, da qual participam coisas e aromas, sentimentos e passados, crepúsculos e desejos; e então: as vozes de cada um, que complementam e aperfeiçoam todo esse coro. E para fundar uma obra de arte (ou seja: uma imagem da vida mais profunda da vivência, mais do que de hoje, sempre possível em todos os tempos) será necessário relacionar corretamente e equilibrar as duas vozes: uma, a daquela hora em questão, e a outra, de um grupo de pessoas dentro dela.

XXXIX. E somos todos frutos. Mas estamos pendurados em galhos estranhamente entrelaçados e muitos ventos nos sopram. Tudo o que possuímos é a nossa maturidade, doçura e beleza. Mas a força para tal flui pelo tronco de uma raiz, alastrada por mundos afora, em todos nós. E se quisermos prestar testemunho de seu poder, cada um de nós terá de usá-la, em nosso mais solitário sentido. Quanto mais solitários houver, tanto mais solene, comovente e poderosa é a sua comunidade.