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18 de setembro de 2014

o que é um bom espaço público - 12 critérios

Natalia Garcia, do projeto Cidade das pessoas, traduziu e adaptou os 12 critérios para determinar o que é um bom espaço público estabelecidos pelos autores urbanistas Jan Gehl, Lars Gemzøe, Sia Karnaes e Britt Sternhagen Sóndergaard no livro New City Life (só encontrei menção ao livro Cities for people). A concepção gráfica é dos designers Marina Chevrand e Calu Tegagni. 





Com base nestes critérios, é possível avaliar o lugar onde você vive. 
Outro ponto que ajuda a gente pensar a nossa cidade é a determinação de seus diferenciais. Confira abaixo: 

14 de fevereiro de 2014

Aprendendo com os monstros1 - Javier Toret



O encontro "Outros monstros possíveis. Pobres, índios, imigrantes, loucos: Mestiçando a cidade...”,
organizado por Giuseppe Cocco (PPGCO/UFRJ e Universidade Nômade), Lia Calabre (FCRB),
Mauricio Siqueira (FCRB) e Emerson Mehry (UFRJ), acontece na Fundação Casa de Rui Barbosa.

No dia 14 de novembro de 2013, das 14 às 18h, foram convidados para o debate
 Poéticas das redes e das ruas
 Paula Kossatz (Mídia Ativista), Javier Toret (UOC- Barcelona, Espanha), Larissa Bery (Dona Baratinha), Rafaela Miranda Rocha (Coletivo Projetação), Rodrigo Modenesi (Morre Diabo) e Itála Isis (Movimento Cidade Invisíveis).

O que é e como se dá a participação política?
Quais os caminhos possíveis na realização da transformação social no atual contexto histórico, em que o interesse dos bancos e das grandes corporações se sobrepõem aos direitos dos cidadãos já declarados como universais?
Para enfrentar esses monstros, eis outros possíveis.
***
Javier Toret – o monstro na rede

Cheguei e Javier Toret já estava com o microfone na mão. Falava super rápido, e em espanhol. Optei por pescar na sua fala alguns termos e anotar todos os endereços na rede por ele mencionados.

Esta postagem  é o resultado de uma pequena pesquisa na rede, partindo das indicações feitas por Javier Toret, em sua apresentação sobre a atuação da assets.outliers (web design, visualização de dados e ensaios cidadãos, segundo o site) nas manifestações populares na Espanha a partir de 2011. 

O termo assets é muito utilizado em gestão de recursos financeiros (assets management) mas a palavra se refere a um universo mais amplo, no qual se incluem as noções de posse de bens ativos, como qualidades e vantagens que extrapolam a visão contábil do mundo, humanizando-a.

Quanto a outlier, aprendi que a expressão vem da estatística, e refere-se à observação de dados amostrais insignificantes porque muito dissonantes. Em geral, nas análises estatísticas, estas observações são descartadas, por destoarem demais da opinião média. Mas, questiona Javier Toret, se são essas as informações que, precisamente, fornecem  os mais valiosos insights e dados mais ricos, mais produtivos para a interpretação da amostra, por que descarta-las?
Bia Albernaz
Os assets.outliers.es trabalham com esses dados nas redes sociais, tornando-os visíveis. De um ponto de vista antropológico, analisam essa diversidade de informações em trânsito nas cidades, e as transformam em dados, nutrindo gráficos e pesquisas que as tradicionais empresas de marketing, voltadas para a pesquisa de opinião e para a montagem de perfis de consumidor, costumam desprezar.
Visor de emoções do dia 15 de maio de 2011. Elaborado por Oscar Marín Miró http://assets.outliers.es/15memociones/
Dessa maneira, traduzem as cidades reais em cidades virtuais, sempre com base no modelo bottom-up. Bottom-up?!
De acordo com a Sebrae, o desenvolvimento “bottom-up” é um modelo complementar (e não oposto) ao modelo “top-down” na geração de trabalho e renda nos municípios brasileiros. De fato, na internet chega-se a vários endereços onde se pode ler a respeito do tal modelo bottom-up, mas apenas em alguns casos a sua menção se dá tendo como pano de fundo um contexto político propriamente dito, tal como citado por Javier Toret. Ao que parece, o modelo está catalogado, nomeado e alastrado, seja como exercício de retórica, com tom propagandístico, seja como jargão ou gancho para facilitar a comunicação. Parece-me que o uso dado por Javier ao termo se encaixa na última hipótese, mas também como se a referência a esse modelo fosse uma bandeira ou um escudo, pelas possibilidades abertas por ele em relação à negociação e à construção de consenso em ações civis. 
*** 
 Agora DRY
Outro termo do jargão de Javier Toret é DRY. Segundo a Wikipédia, trata-se de um acrônimo de ‪Don't repeat yourself. (Em português seria  “Não repita a si mesmo”.) Mas isso é no jargão do programador de informações em sistemas.

Pesquisando mais, descobri que DRY é também uma sigla criada no contexto político das manifestações civis na Espanha. Para ampliar a participação, foi criada a plataforma ¡Democracia Real YA! (DRY). Os dados a respeito são fartos e fáceis de encontrar na rede, já que a intenção era justamente essa: possibilitar que as ideias em circulação nas ruas se propagassem em um ambiente de fácil navegação e alta interatividade, para viabilizar uma participação mais ampla, horizontalizada e sem lideranças.
 O movimento na Espanha começou com a ocupação da praça principal em Madri – a Puerta del Sol – em 15 de maio de 2011 e se alastrou para 57 outras cidades. Sua motivação foi denunciar o modo como as grandes empresas e os bancos dominam as tomadas de decisão nas esferas políticas e econômicas, e exercitar a democracia participativa e sem hierarquias. Na plataforma DRY defende-se a democracia direta através de assembleias populares e a busca de consenso.

A inspiração para o DRY foram os avanços obtidos pela população da Islândia em sua crise financeira de 2009, pela Primavera Árabe, pelos protestos na Grécia em 2010 e 2011 e pelas revoluções na Tunísia no mesmo período. Contudo, em abril de 2012, alguns daqueles que iniciaram a plataforma DRY racharam, criando uma organização paralela cujo nome é o mesmo daquela da qual partiram!

Na bibliografia básica dos ativistas do DRY, encontra-se o pequeno tratado de Stéphane Hessel (Indignai-vos), escrito no final de uma trajetória que passou pela Resistência Francesa durante a 2a Guerra Mundial.
O conteúdo do livro pode ser visualizado AQUI.
Também na Espanha, como em protestos em várias partes do mundo, a violência por parte de policiais e de manifestantes se fez e se faz presente, constituindo-se como um fator de desagregação e de abandono de militantes mais pacíficos, temerosos ou cautelosos. Na plataforma DRY, encontra-se um Manifesto que busca transcender a linguagem política das instituições partidárias e sindicais, consideradas pouco confiáveis em nossos dias. A ênfase está na cobrança ao governo para que ele assuma sua responsabilidade diante dos cidadãos, garantindo a todos condições dignas de vida. O Manifesto também critica o consumismo e o hedonismo, que alimentam uma rede perniciosa de endividamento para o indivíduo e de desgaste energético do planeta. Alguns das organizações signatárias do Manifesto são: NoLesVotes; Plataforma de Afectados por la Hipoteca; Asociación Nacional de Desempleados; Juventud Sin Futuro; Attac España; Ecologistas en Acción; Estado del Malestar; Occupy Hispania - Iberia - Lusitania Indignados # Iberian R-Evolution & Unión União Unió Ibérica

A questão é:
indignados em geral não recebem bom tratamento dos governantes,
já que em geral esses são os alvos da indignação.
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Outra noção citada por Javier Toret foi Identidade Coletiva, conceito presente na Psicologia Social, sobretudo quando se trata de entender o que vem a ser a identidade social.  Na Antropologia, o termo também circula. Joseph Jordania, etnomusicólogo, defende que a identidade coletiva foi crucial para a sobrevivência humana diante das forças da seleção natural. De acordo com ele, a identidade coletiva permite a suspensão do medo e da dor dos indivíduos em situações de combate, das quais os humanos não têm a memória. Em situações-limite, a identidade coletiva exacerba-se. São os momentos em que as pessoas se dispõem a perder as suas vidas por um objetivo coletivo, como a sobrevivência de seus filhos ou do seu grupo.

No cotidiano, essa alteração de consciência demonstra-se pela capacidade humana de seguir o ritmo de grandes grupos, como acontece em corais (Jordania é um maestro de corais) ou no carnaval, por exemplo. Nesse estado de Identidade Coletiva, a sobrevivência do grupo se sobrepõe à sobrevivência individual. 

Consciência coletiva é um termo correlato que descreve o cenário em que uma pluralidade de pessoas formam parte de uma rede, como se essa tivesse uma mente própria, parecida com uma colmeia.
***
Versão completa do Colóquio
 
No meio dos debates sobre taxa de crescimento do PIB, emergência de uma nova classe média, megaeventos e megaobras, multiplicam-se resistências que se manifestam monstruosamente...

 Como cheguei atrasada, não ouvi a primeira fala, de Paula Kossatz (Mídia Ativista).
Relato de Bia Albernaz

6 de janeiro de 2014

A participação da criança na cidade 5 - Ouvindo as crianças

                                                                                                                                         Márcia Fernandes
                 Na quinta postagem da série " A criança e sua participação na cidade", trazemos o conceito de cidade amigável,  ou seja, como a cidade pode se tornar parceira da criança, ouvi-la e sobretudo colocar  em prática as contextualizações de sua fala através de mudanças e alterações positivas em seu bairro, sua rua, sua cidade.
           Vários projetos foram apresentados no seminário, projetos que saíram do papel e foram colocados em prática em várias cidades com a participação efetiva das crianças junto ao poder público, sob a tutela de ongs e instituições interessadas em transformar a escuta em ações no espaço integrado de convivência intergeracional.
              Se a cidade foi planejada e pensada por adultos então como as crianças se adaptam a esses espaços, como podem modificá-lo, torná-lo mais lúdico, e se apropriar de praças, jardins, campinhos e terrenos baldios?
              O primeiro projeto - Pensando e planejando a cidade - aconteceu numa escola municipal em São Paulo. As crianças foram ouvidas sobre a rua da escola e, após a coleta de dados e informações, os participantes chegaram à conclusão que a rua era muito triste e escura. A primeira ação foi pintar as calçadas, colorir os muros e  plantar árvores. A rua ficou mais alegre e convidativa e também fez mais sucesso na escola.
          Um desdobramento desse mesmo projeto foi uma conversa com as crianças da escola sobre o espaço de brincar. O que se notou e ficou registrado é que os brinquedos já não eram tão interessantes, não proporcionavam novas emoções, tal como disseram as crianças. Junto com um arquiteto, as crianças projetaram então novos brinquedos que, através de uma iniciativa privada, foram montados nos espaços existentes. Note-se que as ideias foram pensadas pelas crianças e só então adaptadas às possibilidade de criação, montagem e funcionalidade pelo arquiteto. O grande sucesso fez com que o projeto se estendesse a outras escolas do bairro.  
             Outro projeto desenvolvido em duas comunidades  do Rio de Janeiro, Santa Marta e Chapéu Mangueira foi a montagem de um mapa afetivo a partir da indicação, pelas crianças, dos lugares significativos para elas dentro da comunidade, espaços onde moram, circulam,  estudam, brincam e também aqueles onde não podem ou não costumam ir.
           A metologia desse projeto consiste em trazer para as crianças um mapa ampliado da comunidade onde são feitas  anotações e marcações dos pontos da comunidade pelas crianças.  Elas escrevem em cartões os nomes dos lugares (campinhos, buraco, pedra do urubu, escolinha) e acrescentam no mapa, podendo-se complementar com histórias e  vivências a respeito desses locais por qualquer um do grupo. Aos poucos o mapa passa a ganhar uma feição mais afetiva e os lugares passam a ter enredos, positivos ou negativos. Dessa forma, o contexto históricos dos lugares  da comunidade passam a ser conhecidos. A proposta é trazer a informação dos diferentes usos que as crianças fazem desses lugares e os seus desejos de mudanças.
              Mas nem sempre os projetos pensados alcançam os voos esperados. Na Vila Autódromo, Rio de Janeiro, os moradores sofrem  uma constante ameaça de remoção por parte da exploração imobiliária e dos grandes eventos esportivos que a cidade sediará nos próximos anos. Lá  foi montado um Plano Popular da Vila Autódromo (para acessá-lo, clique aqui). Esse plano de desenvolvimento urbano, econômico, social e cultural foi pensado junto com a  comunidade, arquitetos e engenheiros e apresentado à Prefeitura a fim de se criar uma estratégia que possibilite a manutenção da comunidade no local em que vive há mais de vinte anos. Alguns moradores possuem inclusive concessão de direito real de uso, o que cria o impasse junto ao poder público mas infelizmente o projeto não foi aceito pela prefeitura do Rio de Janeiro e os moradores seguem na luta.
         Ainda relacionado ao Plano Popular da Vila Autódromo, houve uma bela  iniciativa do  Laboratório de Cartografia junto às crianças da comunidade: a montagem do mapa afetivo (para acessá-lo, clique aqui).
               Pela leitura do mapa, percebe-se o quanto as possíveis intervenções, remoções, despejos, entre outros acontecimentos  a serem realizados nos  espaços  de morar das pessoas, sejam eles na favela, numa vila ou num lugarejo acarretam mudanças socio-econômicas, culturais e mais ainda psicológicas nos moradores que ali residem. Suas vidas foram construídas a partir dos laços afetivos estabelecidos numa determinada esquina, num campo, numa sombra de árvore, num bar ou perto de um muro. E os novos caminhos tomados pela opção de tornar o Rio de Janeiro numa cidade-evento  engole essas histórias e rouba memórias, destruindo paisagens psicossociais (cf. Suely Rolnick, Cartografia, 1989).
              As mudanças na cidade causam impactos em todos: idosos, jovens e principalmente nas crianças, que constroem as suas histórias a partir das memórias comunitárias. Assim, o aterramento de suas raízes e de suas referências culturais e sociais trazem impactos muitas vezes nunca superados, por se tratarem de interrupções da  construção de suas próprias memórias e das suas histórias significativas. Ouvir as crianças, conhecer suas sugestões e ideias é um grande passo para que o conceito de cidadania comece a ser exercido. Daí a relevância de se pensar numa cidade mais amigável,  que  reconheça a criança como sujeito de direitos. 
              Termino a postagem falando de um documento recentemente criado pela Rede Nacional da Primeira Infância. O Plano Nacional pela Primeira Infância (para acessá-lo, clique aqui), que assegura direitos até os seis anos, tem como um dos seus principais objetivos a criação de metas e ações para que a criança cresça como um  pequeno cidadão, além de garantir  seus direitos nos próximos doze anos.  O Plano destaca a 27ª Sessão Especial da Assembléia das Nacões Unidas (clique aqui para saber mais), ocorrida em maio de 2002 que discutiu Um Mundo Melhor Para as Crianças e apontou dez importantes compromissos e princípios básicos  para os governantes do mundo a fim de assegurarem uma melhor infância. Desses, sublinho aqui o de número nove: Ouvir as crianças e assegurar sua participação.
Que as cidades possam acolher e ouvir mais as crianças!

16 de dezembro de 2013

O livro urbano do profeta Gentileza virou pó?

   Mônica Vallim
          Há 52 anos, na antevéspera do Natal de 1961, seis dias após o trágico incêndio do Gran Circus Norte-Americano, onde morreram mais de 500 pessoas, a maioria crianças, José Datrino, um paulista nascido em 1917, aos 44 anos, sentiu-se de alguma forma tocado ou incomodado por Deus. Deixou todos os seus bens materiais para seus familiares, e resolveu fazer canteiros de flores e hortaliças nas cinzas do circo em Niterói, que passou a ser conhecido como Paraíso Gentileza.
Fonte: http://www.projetovip.net/0411.htm
          Em meados da década de 70 tornou-se o andarilho barbado de bata branca, com estandarte erguido nos trens e barcas pregando a sua máxima GENTILEZA GERA GENTILEZA. Mas segundo pessoas que conviveram com ele, o profeta era um pregador moralista, e algumas vezes até mesmo agressivo com os transeuntes, por ser muito crítico às minissaias da época, precisando em certas ocasiões ser contido por policiais.
          Na década de 80 virou uma espécie de personalidade carioca quando decidiu pintar murais artísticos nas pilastras do viaduto da Perimetral, no Caju.
          Pintou um total de 56 pilastras que constituíam um verdadeiro livro urbano numerado no principal acesso rodoviário ao Rio de Janeiro.
          Gentileza escolheu pilastras na zona portuária próximas à Rodoviária Novo Rio, onde se dedicou a escrever suas mensagens de amor à natureza, gentileza ao próximo e críticas ao “capetalismo”. Seria um louco e fanático o nosso profeta?
          Segundo o filósofo Giorgio Agamben, o capitalismo é uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia é o trabalho e o objeto é o dinheiro.
***
          Após a sua morte em 1996, devido às pichações a Prefeitura resolveu pintar todas as pilastras de cinza, mas houve uma mobilização de acadêmicos e artistas para que as pilastras fossem restauradas. Em 1999 esse movimento deu origem ao projeto "Rio com Gentileza" visando a restauração dos painéis, concluída em maio de 2000.

          Com o megaprojeto de revitalização do Porto Maravilha, houve a promessa do atual prefeito, Eduardo Paes, de preservar algumas pilastras do Gentileza. Entretanto, se até seis vigas de aço de vinte toneladas cada desapareceram sem que ninguém tenha visto, apesar das várias câmeras de monitoramento espalhadas pela cidade, será mesmo que os painéis de Gentileza serão preservados conforme o prometido ou virarão pó?
          Dia 24 de novembro de 2013 o primeiro trecho do Elevado da Perimetral foi implodido. Até o momento o que foi feito desses murais continua sendo um grande mistério. Mas ao menos salvaram em um blog as fotos  de 55 pilastras restauradas do profeta Gentileza. 
          Inspirado nas ideias de Lefebvre para investigar as ligações entre urbanização, capitalismo e direito à cidade, o geógrafo britânico David Harvey escreveu um artigo inicialmente publicado na revista New Left Review, em 2008, que nos dá algumas pistas quentes para compreender esse episódio um pouco mais.
          Os processos de reurbanização seguem um modelo mundial que atende prioritariamente aos interesses neoliberais de economia globalizada a qualquer preço dirigida aos que dispõem de capital para reinvestir seus lucros em parcerias público-privadas. Utilizando a força do braço armado do Estado, promovem remoções forçadas e gentrificação em determinadas áreas que julgam economicamente promissora. 
          Na medida em que não se investe na mesma proporção em transporte público, saúde, educação e infraestrutura de saneamento básico nas periferias (que a cada verão sofrem com inundações ou deslizamentos após obras públicas de fachada, e responsabilizam a natureza ou o lixo dos pobres pelo caos), vislumbra-se o porquê dos movimentos sociais defenderem generalizadamente relações anárquicas com o poder. E assim as manifestações, que andam violentamente explodindo em várias capitais do mundo, em contrapartida justificam o investimento do Estado em segurança pública.
          A crítica do profeta Gentileza ao "capetalismo", intencionalmente se referindo ao capital como se fosse o capeta da humanidade em seu círculo tendencioso e ilusório, não foi senil ou desatinada diante do que se vive hoje nas grandes metrópoles. 

Fontes
MUSEU VIRTUAL GENTILEZA

IMPLOSÃO DA PERIMETRAL

ENTREVISTA COM AGAMBEN

11 de dezembro de 2013

Brinquedos de ontem e hoje - relato de um Congresso (UFF /2013)

                                                                                                                                                                                     Cris Muniz
Fomos ao Congresso de Brinquedos de Ontem e Hoje apresentar um relato preliminar do projeto Canteiro de Obras na “Ciranda de ideias”, uma modalidade muito interessante de troca de experiências na forma de conversa entre pares. Ali estavam presentes outras iniciativas de caráter não formal, assim como as brinquedotecas, a maioria de escolas de formação de professores, para refletir os limites e possibilidades de um trabalho com o lúdico na formação docente.
          Gostaria de compartilhar aqui algumas questões apresentadas neste evento por Jader Janes, um professor do grupo de pesquisa em Geografia da Infância que penso dialogar com nossas investigações/inquietações. Os estudos desse grupo pensam a criança como um ser geográfico considerando o espaço uma dimensão significativa para sua vida em sociedade e investigam o que definem como territorialidades infantis. Segundo Janes, a investigação da Geografia da Infância busca a forma como a categoria da espacialidade é concebida e como interfere em nossa relação com as crianças e na produção de suas infâncias.
          A pesquisa apresentada no Congresso discutiu o conceito de evolução linear da noção de espaço – do mais próximo para o mais distante – presente nos currículos escolares. Esses gradativamente constroem os diferentes níveis ou dimensões do espaço – eu/minha casa, minha sala, escola, bairro, cidade,  mundo, problematizando as relações entre o mundo e o que está aqui próximo. Esses questionamentos partiram da pesquisa desenvolvida pelo grupo com crianças migrantes. Nelas, a lógica espacial ensinada nas escolas não apareceu, o que aponta para a possibilidade de pensar outras geografias e outras escalas, e para a ideia de topofilia indicada pelos elos afetivos entre a pessoa e o lugar ou seu ambiente físico.
          As crianças migrantes estudadas, mas também outras envolvidas na pesquisa autodenominam-se mudantes – aqueles que mudam constantemente de moradia dentro da própria cidade – e demonstram possuir uma noção de espaço/lugar próximo não como referência espacial, mas afetiva.  O lugar mais destacado pelas crianças migrantes/mudantes foi a escola, especialmente os seus lugares de brincar e de comer, como o refeitório, evidenciando-se aí a prática do territoriolugar em uma escala vivencial, e remetendo ainda à ideia de paisagem que, para além das formas, comportam também cheiros, sons, sabores...
Livro lançado por Jader Janer em 2013 pela editora mediação
***
Rememorando passeios:
Topocídio e Autointerdição


          Durante seu relato, Jader comentou ainda a ideia de topocídio ao se referir às remoções de populações pobres de seus lugares/moradias (hoje, como ontem, tão presentes em tempos de Copa do Mundo e Olimpíadas!). Essas reflexões me fizeram recordar alguns passeios que fiz com crianças do CIEP de Ipanema logo no início do projeto Ônibus da esperança (Bus der Hoffnung). Creio ser possível pensar em um tipo de topocídio ao inverso pelo qual moradores de determinados lugares não podem se mover ou pior não se permitem nem mesmo sair.
          Foi isso que senti, por exemplo, quando propus nosso mais longo passeio à cidade de Petrópolis anunciando, com os termômetros recém-chegados à escola para aulas de geografia, que teríamos que subir a serra com lindas montanhas muito altas e iríamos perceber as mudanças de temperatura e tudo o mais. O que aconteceu? Algumas crianças simplesmente não apareceram no dia do passeio. Soubemos depois, com medo de cair lá de cima das montanhas. Outras passaram mal quando paramos no alto da serra, achavam que não estavam mais respirando. Com esse mesmo grupo, em nosso primeiro passeio ao Jardim Botânico/RJ, fui interpelada pela funcionária do orquidário preocupada se as crianças não iriam destruir as orquídeas, ao que não me contive e respondi que elas já haviam comido as carnívoras antes! Depois disso, no caminho de volta deste mesmo passeio, descemos na orla da Lagoa e fomos a pé até a rua Teixeira de Melo, em Ipanema, que dá acesso ao elevador para o CIEP Ipanema, e aí então foram as crianças que, refratando talvez a experiência vivida, me interpelaram perguntando se poderiam andar ali, se não seriam chamadas de faveladas?! Enfim são muitas as exclamações pela interdição ou autointerdição de acesso aos lugares, pela falta de oportunidade de viver lugares experiências, esses onde podemos nos sentir imersos na cidade, pertencendo a ela como qualquer cidadão.