Textos criativos,filosóficos, históricos e literários; itinerários, depoimentos e relatos para pensar a cidade como lugar de educação. O foco é o Rio de Janeiro mas experiências em outras cidades também são contempladas.
Natalia Garcia, do projeto Cidade das pessoas, traduziu e adaptou os 12 critérios para determinar o que é um bom espaço público estabelecidos pelos autores urbanistas Jan Gehl, Lars Gemzøe, Sia Karnaes e Britt Sternhagen Sóndergaard no livro New City Life (só encontrei menção ao livro Cities for people). A concepção gráfica é dos designers Marina Chevrand e Calu Tegagni.
Com base nestes critérios, é possível avaliar o lugar onde você vive.
Outro ponto que ajuda a gente pensar a nossa cidade é a determinação de seus diferenciais. Confira abaixo:
O encontro "Outros monstros
possíveis. Pobres, índios, imigrantes, loucos: Mestiçando a cidade...”,
organizado por Giuseppe Cocco
(PPGCO/UFRJ e Universidade Nômade), Lia Calabre (FCRB),
Mauricio Siqueira (FCRB) e Emerson
Mehry (UFRJ), acontece na Fundação Casa de Rui Barbosa.
No dia 14 de novembro de 2013, das 14 às 18h, foram
convidados para o debate
Poéticas das redes e das ruas
Paula Kossatz (Mídia Ativista),
Javier Toret (UOC- Barcelona, Espanha), Larissa Bery (Dona Baratinha), Rafaela
Miranda Rocha (Coletivo Projetação), Rodrigo Modenesi (Morre Diabo) e Itála
Isis (Movimento Cidade Invisíveis).
O que é e como se dá a participação política? Quais os caminhos possíveis na realização da transformação social no atual contexto histórico, em que o interesse dos bancos e das grandes corporações se sobrepõem aos direitos dos cidadãos já declarados como universais? Para enfrentar esses monstros, eis outros possíveis.
***
Javier Toret – o monstro na rede
Cheguei e Javier Toret já estava com o microfone na mão. Falava super
rápido, e em espanhol. Optei por pescar na sua fala alguns termos e anotar todos os endereços na rede por ele
mencionados.
Esta postagem é o resultado de uma pequena pesquisa na rede, partindo das indicações feitas por Javier Toret, em sua apresentação sobre a atuação da assets.outliers
(web design, visualização de dados e ensaios cidadãos, segundo o site) nas
manifestações populares na Espanha a partir de 2011.
O termo assets
é muito utilizado em gestão de recursos financeiros (assets management) mas a
palavra se refere a um universo mais amplo, no qual se incluem as noções de
posse de bens ativos, como qualidades e vantagens que extrapolam a visão contábil do mundo, humanizando-a.
Quanto a outlier,
aprendi que a expressão vem da estatística, e refere-se àobservação de dados amostrais insignificantes
porque muito dissonantes.Em geral, nas análises
estatísticas,estas observaçõessão
descartadas, por destoarem demais da opinião média. Mas, questiona Javier
Toret, se são essas as informações que,precisamente,
fornecem osmais
valiososinsightse dados mais ricos, mais produtivospara a interpretação da amostra, por que descarta-las?
Bia Albernaz
Os assets.outliers.es trabalham
com esses dados nasredes sociais, tornando-os
visíveis. De um ponto de vista antropológico, analisam essa diversidade de
informações em trânsito nas cidades, e as transformam em dados, nutrindo
gráficos e pesquisas que as tradicionais empresas de marketing, voltadas para a pesquisa de opinião e para a montagem de
perfis de consumidor, costumam desprezar.
Visor de emoções do dia 15 de maio de 2011. Elaborado por Oscar Marín Miró http://assets.outliers.es/15memociones/
Dessa maneira, traduzem as cidades
reais em cidades virtuais, sempre com base nomodelo bottom-up. Bottom-up?!
De acordo com a Sebrae, o desenvolvimento “bottom-up” é um modelo complementar (e
não oposto) ao modelo “top-down” na geração de trabalho e renda nos municípios
brasileiros. De fato, nainternet
chega-se a vários endereços onde se pode ler a respeito do tal modelo bottom-up, mas apenas em alguns casos a sua menção se dá tendo como pano de fundo um contexto político propriamente dito, tal como citado por Javier Toret. Ao que
parece, o modelo está catalogado, nomeado e alastrado, seja como exercício
de retórica, com tom propagandístico, seja como jargão
ou gancho para facilitar a comunicação. Parece-me que o uso dado por Javier
ao termo se encaixa na última hipótese, mas tambémcomo se a referência a esse modelo fosse uma bandeira ou um escudo, pelas possibilidades abertas
por ele em relação à negociação e à construção de consenso em ações civis.
***
Agora DRY
Outro
termo do jargão de Javier Toret é DRY. Segundo a Wikipédia, trata-se de um acrônimo de Don't repeat yourself. (Em
português seria “Não repita a si
mesmo”.) Mas isso é no jargão do programador de informações em sistemas.
Pesquisando mais, descobri que DRY é também uma sigla criada no contexto político das
manifestações civis na Espanha. Para ampliar a participação, foi criada a
plataforma ¡Democracia Real YA! (DRY). Os dados a respeito são fartos e fáceis de encontrar na rede, já
que a intenção era justamente essa: possibilitar que as ideias em circulação
nas ruas se propagassem em um ambiente de fácil navegação e alta interatividade, para viabilizar uma participação
mais ampla, horizontalizada e sem lideranças.
O movimento na Espanha começou
com a ocupação da praça principal em Madri – a Puerta del Sol – em 15 de maio de
2011 e se alastrou para 57 outras cidades. Sua motivação foi denunciar o modo
como as grandes empresas e os bancos dominam as tomadas de decisão nas esferas
políticas e econômicas, e exercitar a democracia participativa e sem hierarquias. Na plataforma DRY defende-se a democracia direta através de assembleias populares
e a busca de consenso.
A inspiração para o DRY foram os avanços obtidos pela
população da Islândia em sua crise financeira de 2009, pela Primavera Árabe, pelos
protestos na Grécia em 2010 e 2011 e pelas revoluções na Tunísia no mesmo
período. Contudo, em abril de 2012, alguns daqueles que iniciaram a plataforma DRY racharam, criando uma organização
paralela cujo nome é o mesmo daquela da qual partiram!
Na bibliografia básica dos
ativistas do DRY, encontra-se o
pequeno tratado de Stéphane Hessel (Indignai-vos),
escrito no final de uma trajetória que passou pela Resistência Francesa durante
a 2a Guerra Mundial.
Também na Espanha, como em
protestos em várias partes do mundo, a violência por parte de policiais e de
manifestantes se fez e se faz presente, constituindo-se como um fator de
desagregação e de abandono de militantes mais pacíficos, temerosos ou
cautelosos. Na plataforma DRY, encontra-se um Manifesto que busca
transcender a linguagem política das instituições partidárias e
sindicais, consideradas pouco confiáveis em nossos dias. A ênfase está na cobrança
ao governo para que ele assuma sua responsabilidade diante dos cidadãos,
garantindo a todos condições dignas de vida. O Manifesto também critica o
consumismo e o hedonismo, que alimentam uma rede perniciosa de endividamento
para o indivíduo e de desgaste energético do planeta. Alguns das organizações
signatárias do Manifesto são: NoLesVotes; Plataforma
de Afectados por la Hipoteca; Asociación
Nacional de Desempleados; Juventud
Sin Futuro; Attac
España; Ecologistas
en Acción; Estado
del Malestar; Occupy
Hispania - Iberia - Lusitania Indignados # Iberian R-Evolution & Unión
União Unió Ibérica
A questão é: indignados em geral não
recebem bom tratamento dos governantes,
já que em geral esses são os alvos da indignação. ***
Outra noção citada por Javier Toret foi Identidade Coletiva, conceito presente
na Psicologia Social, sobretudo quando se trata de entender o que vem a ser a identidade social.Na Antropologia, o termo também circula. Joseph Jordania, etnomusicólogo, defende que a identidade coletiva foi crucial para a sobrevivência humana diante
das forças da seleção natural. De acordo com ele, a identidade
coletiva permite a suspensão do medo e da dor dos indivíduos em situações de
combate, das quais os humanos não têm a memória. Em situações-limite, a identidade
coletiva exacerba-se. São os momentos em que as pessoas se dispõem a perder as
suas vidas por um objetivo coletivo, como a sobrevivência de seus filhos ou do
seu grupo.
No cotidiano, essa alteração de consciência
demonstra-se pela capacidade humana de seguir o ritmo de grandes grupos, como
acontece em corais (Jordania é um maestro de corais) ou no carnaval, por
exemplo. Nesse estado de Identidade
Coletiva, a sobrevivência do grupo se sobrepõe à sobrevivência
individual.
Consciência coletiva é um termo correlato que descreve o cenário em
que uma pluralidade de pessoas formam parte de uma rede, como se essa tivesse
uma mente própria, parecida com uma colmeia.
***
Versão completa do Colóquio
No
meio dos debates sobre taxa de crescimento do PIB, emergência de uma nova
classe média, megaeventos e megaobras, multiplicam-se resistências que se
manifestam monstruosamente...
Como cheguei atrasada, não ouvi a primeira fala, de Paula Kossatz (Mídia Ativista). Relato de Bia Albernaz
Naquinta postagem da série " A criança e sua participação na cidade", trazemos o conceito de cidade amigável, ou seja, como a cidade pode se tornar parceira da criança, ouvi-la e sobretudo colocar em prática as contextualizações de sua fala através de mudanças e alterações positivas em seu bairro, sua rua, sua cidade.
Vários projetos foram apresentados no seminário, projetos que saíram do papel e foram colocados em prática em várias cidades com a participação efetiva das crianças junto ao poder público, sob a tutela de ongs e instituições interessadas em transformar a escuta em ações no espaço integrado de convivência intergeracional.
Se a cidade foi planejada e pensada por adultos então como as crianças se adaptam a esses espaços, como podem modificá-lo, torná-lo mais lúdico, e se apropriar de praças, jardins, campinhos e terrenos baldios?
O primeiro projeto - Pensando e planejando a cidade - aconteceu numa escola municipal em São Paulo. As crianças foram ouvidas sobre a rua da escola e, após a coleta de dados e informações, os participantes chegaram à conclusão que a rua era muito triste e escura. A primeira ação foi pintar as calçadas, colorir os muros e plantar árvores. A rua ficou mais alegre e convidativa e também fez mais sucesso na escola.
Um desdobramento desse mesmo projeto foi uma conversa com as crianças da escola sobre o espaço de brincar. O que se notou e ficou registrado é que os brinquedos já não eram tão interessantes, não proporcionavam novas emoções, tal como disseram as crianças. Junto com um arquiteto, as crianças projetaram então novos brinquedos que, através de uma iniciativa privada, foram montados nos espaços existentes. Note-se que as ideias foram pensadas pelas crianças e só então adaptadas às possibilidade de criação, montagem e funcionalidade pelo arquiteto. O grande sucesso fez com que o projeto se estendesse a outras escolas do bairro.
Outro projeto desenvolvido em duas comunidades do Rio de Janeiro, Santa Marta e Chapéu Mangueira foi a montagem de um mapa afetivo a partir da indicação, pelas crianças, dos lugares significativos para elas dentro da comunidade, espaços onde moram, circulam, estudam, brincam e também aqueles onde não podem ou não costumam ir.
A metologia desse projeto consiste em trazer para as crianças um mapa ampliado da comunidade onde são feitas anotações e marcações dos pontos da comunidade pelas crianças. Elas escrevem em cartões os nomes dos lugares (campinhos, buraco, pedra do urubu, escolinha) e acrescentam no mapa, podendo-se complementar com histórias e vivências a respeito desses locais por qualquer um do grupo. Aos poucos o mapa passa a ganhar uma feição mais afetiva e os lugares passam a ter enredos, positivos ou negativos. Dessa forma, o contexto históricos dos lugares da comunidade passam a ser conhecidos. A proposta é trazer a informação dos diferentes usos que as crianças fazem desses lugares e os seus desejos de mudanças.
Mas nem sempre os projetos pensados alcançam os voos esperados. Na Vila Autódromo, Rio de Janeiro, os moradores sofrem uma constante ameaça de remoção por parte da exploração imobiliária e dos grandes eventos esportivos que a cidade sediará nos próximos anos. Lá foi montado um Plano Popular da Vila Autódromo (para acessá-lo, clique aqui). Esse plano de desenvolvimento urbano, econômico, social e cultural foi pensado junto com a comunidade, arquitetos e engenheiros e apresentado à Prefeitura a fim de se criar uma estratégia que possibilite a manutenção da comunidade no local em que vive há mais de vinte anos. Alguns moradores possuem inclusive concessão de direito real de uso, o que cria o impasse junto ao poder público mas infelizmente o projeto não foi aceito pela prefeitura do Rio de Janeiro e os moradores seguem na luta.
Ainda relacionado ao Plano Popular da Vila Autódromo, houve uma bela iniciativa do Laboratório de Cartografia junto às crianças da comunidade: a montagem do mapa afetivo (para acessá-lo, clique aqui).
Pela leitura do mapa, percebe-se o quanto as possíveis intervenções, remoções, despejos, entre outros acontecimentos a serem realizados nos espaços de morar das pessoas, sejam eles na favela, numa vila ou num lugarejo acarretam mudanças socio-econômicas, culturais e mais ainda psicológicas nos moradores que ali residem. Suas vidas foram construídas a partir dos laços afetivos estabelecidos numa determinada esquina, num campo, numa sombra de árvore, num bar ou perto de um muro. E os novos caminhos tomados pela opção de tornar o Rio de Janeiro numa cidade-evento engole essas histórias e rouba memórias, destruindo paisagens psicossociais(cf. Suely Rolnick, Cartografia, 1989).
As mudanças na cidade causam impactos em todos: idosos, jovens e principalmente nas crianças, que constroem as suas histórias a partir das memórias comunitárias. Assim, o aterramento de suas raízes e de suas referências culturais e sociais trazem impactos muitas vezes nunca superados, por se tratarem de interrupções da construção de suas próprias memórias e das suas histórias significativas. Ouvir as crianças, conhecer suas sugestões e ideias é um grande passo para que o conceito de cidadania comece a ser exercido. Daí a relevância de se pensar numa cidade mais amigável, que reconheça a criança como sujeito de direitos.
Termino a postagem falando de um documento recentemente criado pela Rede Nacional da Primeira Infância. O Plano Nacional pela Primeira Infância (para acessá-lo, clique aqui), que assegura direitos até os seis anos, tem como um dos seus principais objetivos a criação de metas e ações para que a criança cresça como um pequeno cidadão, além de garantir seus direitos nos próximos doze anos. O Plano destaca a 27ª Sessão Especial da Assembléia das Nacões Unidas (clique aqui para saber mais), ocorrida em maio de 2002 que discutiu Um Mundo Melhor Para as Crianças e apontou dez importantes compromissos e princípios básicos para os governantes do mundo a fim de assegurarem uma melhor infância. Desses, sublinho aqui o de número nove: Ouvir as crianças e assegurar sua participação.
Que as cidades possam acolher e ouvir mais as crianças!
Há 52 anos, na antevéspera do Natal de
1961, seis dias após o trágico incêndio do Gran Circus Norte-Americano, onde
morreram mais de 500 pessoas, a maioria crianças, José Datrino, um
paulista nascido em 1917, aos 44 anos, sentiu-se de alguma forma tocado ou incomodado por
Deus. Deixou todos os seus bens materiais para seus familiares, e resolveu fazer
canteiros de flores e hortaliças nas cinzas do circo em Niterói, que passou a ser conhecido como
Paraíso Gentileza.
Em meados da década de 70
tornou-se o andarilho barbado de bata branca, com estandarte erguido nos trens e barcas pregando a
sua máxima GENTILEZA GERA GENTILEZA. Mas segundo pessoas que conviveram com
ele, o profeta era um pregador moralista, e algumas vezes até
mesmo agressivo com os transeuntes, por ser muito crítico às minissaias da
época, precisando em certas ocasiões sercontido por policiais.
Na década de 80 virou uma espécie
de personalidade carioca quando decidiu pintar murais artísticos nas
pilastras do viaduto da Perimetral, no Caju.
Pintou um total de 56 pilastras
que constituíam um verdadeirolivro urbano numerado no principal acesso rodoviário ao Rio
de Janeiro.
Gentileza escolheu pilastras
na zona portuária próximas à Rodoviária Novo Rio, onde se dedicou a escrever
suas mensagens de amor à natureza, gentileza ao próximo e críticas ao “capetalismo”. Seria um louco e fanático o nosso profeta?
Segundo o filósofo Giorgio Agamben, o capitalismo é uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia é o trabalho e o objeto é o dinheiro.
***
Após a sua morte em 1996, devido
às pichações a Prefeitura resolveu pintar todas as pilastras de cinza, mas
houve uma mobilização de acadêmicos e artistas para que as pilastras
fossem restauradas. Em 1999 esse movimento deu origem ao projeto "Rio com Gentileza" visando a restauração dos painéis, concluída em maio de 2000.
Com o megaprojeto de revitalização do Porto Maravilha, houve a promessa do atual prefeito, Eduardo Paes, de preservar algumas pilastras do Gentileza. Entretanto, se até seis vigas de aço de vinte toneladas cada desapareceram sem que ninguém tenha visto, apesar das várias câmeras de monitoramento espalhadas pela cidade, será mesmo que os painéis de Gentileza serão preservados conforme o prometido ou virarão pó?
Dia 24 de novembro de 2013 o primeiro trecho do Elevado da Perimetral foi implodido. Até o momento o que foi feito desses murais continua sendo um grande mistério. Mas ao menos salvaram em um blog as fotos de 55 pilastras restauradas do profeta Gentileza.
Inspirado nas ideias de Lefebvre para investigar as ligações entre urbanização, capitalismo e direito à cidade, o geógrafo britânico David Harvey escreveu um artigo inicialmente publicado na revista New Left Review, em 2008, que nos dá algumas pistas quentes para compreender esse episódio um pouco mais. Os processos de reurbanização seguem um modelo mundial que atende prioritariamente aos interesses neoliberais de economia globalizada a qualquer preço dirigida aos que dispõem de capital para reinvestir seus lucros em parcerias público-privadas. Utilizando a força do braço armado do Estado, promovem remoções forçadas e gentrificação em determinadas áreas que julgam economicamente promissora. Na medida em que não se investe na mesma proporção em transporte público, saúde, educação e infraestrutura de saneamento básico nas periferias (que a cada verão sofrem com inundações ou deslizamentos após obras públicas de fachada, e responsabilizam a natureza ou o lixo dos pobres pelo caos), vislumbra-se o porquê dos movimentos sociais defenderem generalizadamente relações anárquicas com o poder. E assim as manifestações, que andam violentamente explodindo em várias capitais do mundo, em contrapartida justificam o investimento do Estado em segurança pública. A crítica do profeta Gentileza ao "capetalismo", intencionalmente se referindo ao capital como se fosse o capeta da humanidade em seu círculo tendencioso e ilusório, não foi senil ou desatinada diante do que se vive hoje nas grandes metrópoles.
Fomos ao Congresso de Brinquedos de Ontem e Hoje apresentar um relato preliminar do projeto Canteiro de Obras na “Ciranda de ideias”, uma modalidade muito interessante de troca de experiências na forma de conversa entre pares. Ali estavam presentes outras iniciativas de caráter não formal, assim como as brinquedotecas, a maioria de escolas de formação de professores, para refletir os limites e possibilidades de um trabalho com o lúdico na formação docente.
Gostaria de compartilhar aqui algumas questões apresentadas neste evento por Jader Janes, um professor do grupo de pesquisa em Geografia da Infância que penso dialogar com nossas investigações/inquietações. Os estudos desse grupo pensam a criança como um ser geográfico considerando o espaço uma dimensão significativa para sua vida em sociedade e investigam o que definem como territorialidades infantis. Segundo Janes, a investigação da Geografia da Infância busca a forma como a categoria da espacialidade é concebida e como interfere em nossa relação com as crianças e na produção de suas infâncias.
A pesquisa apresentada no Congresso discutiu o conceito de evolução linear da noção de espaço – do mais próximo para o mais distante – presente nos currículos escolares. Esses gradativamente constroem os diferentes níveis ou dimensões do espaço – eu/minha casa, minha sala, escola, bairro, cidade, mundo, problematizando as relações entre o mundo e o que está aqui próximo. Esses questionamentos partiram da pesquisa desenvolvida pelo grupo com crianças migrantes. Nelas, a lógica espacial ensinada nas escolas não apareceu, o que aponta para a possibilidade de pensar outras geografias e outras escalas, e para a ideia de topofilia indicada pelos elos afetivos entre a pessoa e o lugar ou seu ambiente físico.
As crianças migrantes estudadas, mas também outras envolvidas na pesquisa autodenominam-se mudantes – aqueles que mudam constantemente de moradia dentro da própria cidade – e demonstram possuir uma noção de espaço/lugar próximo não como referência espacial, mas afetiva. O lugar mais destacado pelas crianças migrantes/mudantes foi a escola, especialmente os seus lugares de brincar e de comer, como o refeitório, evidenciando-se aí a prática do territoriolugar em uma escala vivencial, e remetendo ainda à ideia de paisagem que, para além das formas, comportam também cheiros, sons, sabores...
Durante seu relato, Jader comentou ainda a ideia de topocídio ao se referir às remoções de populações pobres de seus lugares/moradias (hoje, como ontem, tão presentes em tempos de Copa do Mundo e Olimpíadas!). Essas reflexões me fizeram recordar alguns passeios que fiz com crianças do CIEP de Ipanema logo no início do projeto Ônibus da esperança (Bus der Hoffnung). Creio ser possível pensar em um tipo de topocídio ao inverso pelo qual moradores de determinados lugares não podem se mover ou pior não se permitem nem mesmo sair.
Foi isso que senti, por exemplo, quando propus nosso mais longo passeio à cidade de Petrópolis anunciando, com os termômetros recém-chegados à escola para aulas de geografia, que teríamos que subir a serra com lindas montanhas muito altas e iríamos perceber as mudanças de temperatura e tudo o mais. O que aconteceu? Algumas crianças simplesmente não apareceram no dia do passeio. Soubemos depois, com medo de cair lá de cima das montanhas. Outras passaram mal quando paramos no alto da serra, achavam que não estavam mais respirando. Com esse mesmo grupo, em nosso primeiro passeio ao Jardim Botânico/RJ, fui interpelada pela funcionária do orquidário preocupada se as crianças não iriam destruir as orquídeas, ao que não me contive e respondi que elas já haviam comido as carnívoras antes! Depois disso, no caminho de volta deste mesmo passeio, descemos na orla da Lagoa e fomos a pé até a rua Teixeira de Melo, em Ipanema, que dá acesso ao elevador para o CIEP Ipanema, e aí então foram as crianças que, refratando talvez a experiência vivida, me interpelaram perguntando se poderiam andar ali, se não seriam chamadas de faveladas?! Enfim são muitas as exclamações pela interdição ou autointerdição de acesso aos lugares, pela falta de oportunidade de viver lugares experiências, esses onde podemos nos sentir imersos na cidade, pertencendo a ela como qualquer cidadão.