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9 de julho de 2020

ENCONTRO!


Cristina Muniz
Passeio bom não se faz sozinha!  Talvez por isso, como professora, sempre gostei de passear com crianças. Parque da Catacumba. Quinta da Boa Vista. Praia de Copacabana. Parque de Madureira. Alguns lugares escolhidos pelas crianças, outros por mim. Foi no meio dessas escolhas, que ir a um Shopping do subúrbio apareceu como uma proposta das crianças moradoras e frequentadoras desse shopping. 
Nunca gostei de shopping, uma caixa de vidro rodeada de vitrines que convidam a entrar e consumir aquilo que a gente nem precisa. Uma ilusão de passeio – é como vejo esse lugar. Mas as crianças, não. Dizem que no shopping dá para correr, para brincar e quem não conhece, aprecia! Uma professora pesquisadora, crítica do consumo, concordaria em levar crianças para passear num shopping? Nem pensar! Mas também como assim? Uma professora pesquisadora não ouviria as crianças? Nascida e criada num bairro de classe média da zona sul do Rio de Janeiro, resolvo aceitar a proposta das crianças e no último fim de semana das férias escolares, querendo acreditar que pudesse encontrá-las por lá, vou ao Shopping do subúrbio. Sozinha.
 Já no trajeto de metrô entre a zona sul e a zona norte, fico ali meio perdida a observar.  Crianças sentam-se no assento preferencial e uma senhora bem vestida reclama muito da falta de educação. Quando vai saltar, ainda na zona sul, chama outra senhora mais distante para ocupar o seu lugar, ignorando outros idosos não tão bem vestidos ali ao lado. Embora sendo um trilho só, o trem da zona sul não vai até o subúrbio, e é preciso trocar de trem. Já na linha zona norte, crianças pedem ao pai para se sentarem, e lhes é oferecido o assento preferencial – todos parecem concordar pois estão muito cansadas. Uma moça a quem peço informação se oferece para me levar ate a entrada do Shopping, pois vai saltar naquela estação. 
Chegando lá, vejo muitas crianças, todas acompanhadas de suas famílias. Observo por um tempo uma família com um menino que me chama a atenção pelo seu fascínio com a escada rolante. Deram muitas voltas na praça de alimentação, até que se sentam para comer. Na praça, três crianças brincam de pique entre as mesas, sob o olhar atento dos pais, e ninguém reclama – sim, dá pra correr e brincar no shopping.  Sigo pelos corredores das lojas e me vejo diante de algumas vitrines apreciando... Há mais jovens do que crianças contemplando as vitrines. As crianças, em geral estão de mãos dadas com os pais, pois o shopping está bem cheio neste sábado. Chego até um espaço cercado e com brinquedos, com poucas crianças, a um custo de 14 reais por 15 min de uso. Uma placa com tantas normas que só de ler ficamos inapetentes para brincar. 
Depois de muito rodar por ali, sento no meio da praça de alimentação para comer e vejo um menino que passa vendendo algo pelas mesas e, tão rápido como apareceu, sumiu. Eu o procuro com os olhos, me perguntando como ele está ali a vender balas ou algo assim – atividade proibida em qualquer shopping... Logo ele entra no espaço onde estou e passa pela minha mesa com uma bandeja na mão, vai se sentar atrás. Não olho ainda, reparando no homem que, sentado com a família ao meu lado o encara com desprezo. Isso se passa até essa família se levantar e sair, e ainda saindo o homem continua encarando o menino, suponho, pois não me virei para vê-lo ainda.  Só quando a família sai, volto-me para trás e vejo o menino com a bandeja sentado no banco. Vou até ele pensando que sua aparência e performance ali de alguma forma interrompe a narrativa que se espera de quem frequenta a praça de alimentação de um shopping: 
- Não quer sentar na mesa?   
- Não, aqui tá bom, diz ele, olhando aflito em volta.
- Acho que foi por isso que o homem te olhou daquele jeito. Você pode sentar na mesa pra comer melhor.
- Não ligo não, pode me olhar como quiser, estou vendo os seguranças. Eles não deixam vender aqui.
- Vem sentar na mesa comigo, podemos conversar? Ele aceita.
Conto que vim tentar encontrar as crianças que me inspiraram a passear naquele shopping. Confesso que era a minha primeira vez ali.  
- Você veio daonde? 
- Vim de metrô, de Copacabana. A gente troca de linha e salta quase aqui dentro. 
- Você veio da zona sul? Não teve medo de vir pra cá? Qual estação? 
- Cantagalo.
- Já ouvi falar, tem também o Pavão e Pavãozinho, né?
- É. Já trabalhei lá.
- Queria mesmo é conhecer a Rocinha, deve ser bacana ver o mar lá de cima!
Serginho se apresenta me dando seu contato do Facebook. Pergunta meu nome, pois não aceita qualquer um no seu Face. Deixa muito do que está no prato, bastante arroz, feijão e um pedaço de frango. Quando lhe pergunto se não vai comer, ele diz que não estava com fome, mas quando pediu dinheiro em uma mesa, a pessoa foi até o restaurante e fez esse prato. Não perguntou a ele o que queria, ou se queria comer, avalio. O cardápio parece dizer também de um presumido quanto ao outro que se supõe carente de alimento, e lembro-me do samba da Tuiuti vencedor do carnaval este ano: “... ao me dar escravidão e um prato de feijão com arroz!”.
Ele conta de sua vida, fala das favelas da zona sul e de onde mora e circula, no Jacarezinho e na Mandela, duas favelas ali do entorno. Demonstra ainda conhecer tudo sobre as facções do tráfico, trabalho para o qual já foi convidado pelo namorado da tia. Saiu da escola este ano na sexta série, mas gosta de matemática, história e educação física. Sua mãe teve que ir embora depois de um trágico acidente, e ele fica cada dia na casa de um parente. Alguns gostam dele, outros não. 
- Você vende o que? Bala? 
- Hoje não vendi nada. O mercadão estava fechado, mas fiz 60,00 reais, mostra tirando do bolso, orgulhoso, as notas dobradas entre os dedos. 
- E como fez esse dinheiro? 
- Eu falo assim: intera para pagar um lanche?
- Ah. E você tem planos para essa grana? 
- Sim, vou juntar até cem e colocar aparelho no dente.
- Mas cem reais dão pra colocar aparelho?
- Lá no morro dá!
- Pra que? Seus dentes são lindos!
Ele sorri largo e diz que, então, vai comprar um tênis da Nike, pois na favela dá para comprar também.
- Serginho, o que você gosta no shopping? 
- Não, eu venho vender ou pedir dinheiro.
Insisto, lembrando o que as crianças falaram sobre o “apreciar” e ele diz que não dá para curtir sem dinheiro, pois tudo tem que pagar. Nessa hora, olha os cartazes dos filmes bem à nossa frente e diz que quer ir ao cinema. Vamos comprar seu ingresso, mas ele não consegue entrar. Estava sem documento. Desiste.
Anuncio que vou embora e ele faz questão de me acompanhar até a entrada do metrô.  Ali, no miúdo desse encontro, sentados à mesa por alguns momentos, trocando olhares e conversas sobre a vida, sinto um vínculo concreto que nos une na igualdade de uma comunidade possível. Com esse sentimento, vou caminhando com esse menino até a entrada do metrô. Nos abraçamos. Serginho me espera entrar e diz: cuidado! Vai com Deus!
Este menino da foto vive no Amazonas (fonte Portal do Zacarias). A foto das caixas de sapatos está no Facebook. A favela da foto é do Cantagalo, fotografada por um estudante australiano, Sam Faigen, e encontra-se no site do RioOnWatch.

Cristina Muniz é coordenadora do Laboratório Brinquedoteca do Instituto Superior de Educação (Iserj). Autora da tese "Passeios com crianças: cidade em tensão", acessível no site www.proped.pro.br

5 de junho de 2020

INFÂNCIA CRÔNICA

Sabe pouco quem só estuda dos livros e não olha o mundo. O pessoal que escreveu este livro não poderia estar mais longe disso. Estudiosos sérios das relações entre as crianças e a cultura, os autores destas crônicas saíram à rua, lançando ao tal mundo contemporâneo um olhar infantil no melhor sentido, curioso, comovido e perplexo. Acabaram conseguindo iluminar coisas que, de tanto ver, a gente às vezes já nem enxerga mais. Nessa atenção ao aparentemente miúdo, como as crianças que eles descobrem nas beiradas da cidade, fica nítida inspiração de Walter Benjamin, raras vezes seguido tão pra valer como aqui.
Eles escolheram traduzir esse olhar na forma de crônicas – gênero que recorda o tempo vivido, compondo, um a um, pedacinhos de mosaico. E assim nos fazem lembrar o que dizia outro mestre, Antônio Cândido: “o tempo é o tecido de nossas vidas”. Ouvindo histórias nos ônibus e trens, acompanhando as cenas urbanas em calçadas e esquinas do Rio, os autores aguçaram a escuta e o olhar para as crianças pobres, cuja infância está sendo vivida hoje do jeito que dá e à margem da barbárie, porque elas só têm o hoje para serem crianças. 
Nós, pesquisadores da infância, costumamos dizer que a primeira tarefa dos educadores é educarem a si mesmos. Sim, porque é estranho pregar uma educação imaginativa sem cultivar nossa própria imaginação, assim como é estranho defender retoricamente os direitos das crianças ao mesmo tempo em que se desvia o olhar das meninas e dos meninos que vendem balas e panos de prato pelas avenidas do nosso país. Na escuta acolhedora a alguma dessas crianças, ensaiando novos olhares e linguagens que pudessem dar conta da intensidade humana desses encontros, e explorando as veredas da literatura também pelo lado da autoria, os pesquisadores do grupo Infância e Cultura Contemporânea nos dão aqui mais uma generosa lição: mostram o que pode a sensibilidade aliada à indignação, neste tempo hostil à poesia, à  arte, à liberdade – hostil à infância, portanto. Na primeira pessoa vigorosa que se faz ouvir nos testemunhos éticos e estéticos aqui reunidos, seus autores dizem às crianças que os povoam:
“Estou aqui. Agora. E te vejo.”
Gilka Girardello 
***
A pele que habito 
Núbia Santos 

Caía a tarde. O Sol já ia abaixo e, embora o vento mais frio que vinha do belo mar de Copacabana já manifestasse seus efeitos, ela estava vestida apenas com uma blusinha de alça fina e um short. Era a maior das duas. Seria irmãs? Caminhava entre as mesas falando baixo com os clientes do quiosque. Não levava nenhum minuto em cada mesa e já saiu em direção à outra... Aparentava oito anos deidade e segurava uma bolsa embaixo do braço. Andava devagar.
Crianças abordando turistas em Copacabana desde há muito passou a ser uma cena corriqueira. Os desfechos são sempre os mesmos: ou damos alguma moeda ou negamos e elas se vão. Como clientes do quiosque, eu e minha amiga do Sul, sentadas em uma das mesas, observávamos aquelas duas crianças. Tento me concentrar no cardápio, mas não consigo tirar os olhos daquela menina e de sua suposta irmã. Não por acreditar que havia algo inusitado naquela cena, mas pelas cicatrizes profundas de queimaduras que cobrem seus dois braços e prendem minha atenção. Seus braços parecem mais finos e desproporcionais em relação ao corpo.
Cicatrizes sempre revelam alguma dor passada, tanto aquelas herdadas das estripulias da infância, cuja dor física dura menos que a brincadeira que as causas, quanto aquelas até necessárias, provocadas por cirurgias, por exemplo. Mas cicatrizes de queimaduras sempre revelam alguma situação que talvez pudesse ter sido evitada, e os olhares de alguns clientes pareciam demonstrar isso. Olhares que se demoram, mas a cabeça é sempre rápida no desviar, como se fosse impossível olhar sem imaginar uma certa dor. Percebo alguns apontando, escuto comentários, lamentações... “Coitada!”. Outros baixam os olhos quando as meninas chegam perto.
[...] 

A feira 
Patrícia Trindade 

Toda segunda, ao amanhecer do dia, feirantes já estão em plena atividade para preparar a barraca, assim de que o freguês aprecie e compre. Os grandes caminhões chegam bem cedo, roncam sob as janelas dos apartamentos, o vozerio perturba o sono matinal dos vizinhos. O que não tem a menor importância: na atual situação do mundo, é bom que todos estejam acordados. Além disso, deve subir até as janelas a fragrância das frutas e de todas as coisas nascidas da terra, ainda frescas, vivas e coloridas. Entre caixas e caixotes, passa gente indo e vindo da feira.
            A feira aqui perto de casa movimenta a rua, com tanta gente que passa. Vozes, ruídos, imagens e desejos se oferecem a produzir a dinâmica da feira livre. As barracas vão sendo arrumadas de maneira que o freguês possa contemplar todos os produtos, um chama dali, outro grita daqui, refletindo esse cotidiano que se inventa de mil maneiras. “Sacão é dois!” “Moça bonita não paga, mas também não leva”, “Freguesa, laranja docinha como mel”, “olha o troco!”. 
[...]
As crianças e a xepa lembraram-me dos versos de Gonzaguinha: 
Você deve notar que não tem mais tutu 
E dizer que não está preocupado 
Você deve lutar pela xepa da feira e dizer que está recompensado 
Você deve estampar um ar de alegria e dizer tudo tem melhorado 
Você deve rezar pelo bem do patrão 
E esquecer que está desempregado 

Objeto de museu 
Patrícia Desterro 
Quem visitava o Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, de segunda a sexta-feira, podia ouvir, já da entrada, o burburinho da criançada. Subindo as escadarias de mármore, logo após passar pelo meteorito de Bendegó, as crianças encontravam algo que mexia com elas. Não havia uma que lhe fosse indiferente. Em meio a tantas maravilhas, a objetos de culturas passadas, estava lá algo que para os adultos servia para um descanso breve, mas que convidava as crianças para algo mais. 
Não sei se era pela cor vermelha ou pela forma, mas ele atrai a atenção das pessoas de pouca idade. Era uma maravilha de se ver. Alguns adultos tentavam contê-las, mas não era coisa fácil e talvez fosse algo impossível.
[...] 
Atenção com a escada! Vamos ver o que tem lá em cima. Pessoal, atenção aqui! 
Podem sentar-se aqui! – Fala um mediador, apontando para o banco. Como disse, era apenas um banco vermelho, mas ele despertava algo nas crianças. Elas não aceitavam que aquele banco, que fazia uma angulação das extremidades, não fosse um escorrega. Ora, bolas! Como não?! 
[...]

Trechos do livro Infância crônica organizado por Raíza VENAS e Rita RIBES e publicado pela Nau Editora, em 2019, no Rio de Janeiro. 

9 de abril de 2015

Os intermediários - os lugares sob a lente fotográfica de uma criança - Parte 2

                                                                                                           Márcia Fernandes
          O que busca uma criança quando mira uma câmera? É muito mais do que uma imagem; é um momento em que eles se tornam autores do próprio percurso, seja ele mágico, doce ou trágico.
        O percurso de Molhen  Bakarat era trágico, mas ele o fez mesmo assim.
        Mas quem foi Molhen  Bakarat?  Sua identidade foi revelada depois de sua morte, em Alepo, Síria, em meio a um conflito de guerra, na semana de Natal de 2013.
       Bakarat entrou para o fotojornalismo, valendo-se de uma oportunidade ou por falta dela. Podia escolher entre ser um homem-bomba em seu país ou aproveitar a facilidade em transitar  nos becos de Alepo. Não sendo aceito pelo seu Estado  para ser um homem bomba, por ser um adolescente "moderno", de acordo com os costumes culturais exigidos para a função, e podendo ir a lugares que somente a população local poderia chegar, entrou para o fotojornalismo.
          Retratava o cotidiano da população, os momentos de desespero, desolação, de  alegria fugaz  e de intimidade, tudo o que somente a convivência compartilhada propicia. Fotograva com sensibilidade e liberdade.
          Com apenas 17 anos, se tornou fotógrafo de guerra, testemunha e vítima. Um jovem pertencente à população local, como tantas outras crianças, que se tornou uma opção, uma salvação para os  jornalistas ocidentais  que embarcavam nessa aventura arriscada de cobrir os conflitos na Síria.
      Bakarat era um garoto comum: gostava de Kate Perry, usava  jeans  e camiseta e  um estiloso  casaco com brasão da Grã-Bretanha.  Sua  foto de perfil no  Facebook  era a de um menino. Parecia feliz com um largo sorriso no rosto.
      Vendeu fotos que renderam milhões para a Reuters. Por 15 fotos, ganhava pouco mais que 100 dólares. Morreu sem capacete e sem colete à prova de balas. A agência de notícias Reuters noticiou a sua morte, mas não revelou a sua idade. Por que?
     Molhen foi salvo de se tornar um terrorista?  Mas morreu pelo terror, por diferentes pesos, mas pelas mesmas medidas. O seu percurso foi curto, mas intenso.
     A guerra continuará, mas a maneira como jovens, crianças que por estarem e fazerem parte da zona de perigo são tratadas como peças de um jogo de xadrez fotográfico, devem ser questionadas.
Molhen e a fotografia, o perigoso percurso do conflito.
          Para nós resta a lembrança; para a Reuters, uma nota: “A segurança de nossos jornalistas, sejam eles funcionários ou freelancers, é primordial…” SERÁ? Com certeza, não. Sem identidade revelada, sem idade divulgada. ( Cf. http://revistazum.com.br/colunistas/sangue-novo-na-guerra/)

30 de janeiro de 2015

Os intermediários - os lugares sob a lente fotográfica de uma criança


Márcia Fernandes
Dores, alegrias, inocências, angústias e esperanças se misturam em diversas obras que, em épocas diferentes, discutem o olhar da criança, seus  ângulos e perspectivas, que adultos não conseguem captar. Com o que sonha a criança? O que a imagem traduz é produto de sua  consciência  focada num ponto, em um objeto, uma paisagem?
Entre o real e o imaginário, há um intermediário: a criança. Olhar o mundo pela sua  perspectiva nos conduz  a um questionamento constante: Afinal, o que é real? O que é imaginário? Uma travessia por um caminho tênue entre o abrir e o fechar dos olhos no piscar de um clique. Mas o que busca a criança quando posiciona a lente numa direção?   O que ela  escolhe nem sempre é angelical ou cor-de-rosa. O cenário em foco dialoga com a sua realidade  ou com uma realidade que ela aspira ter, viver. A foto  alça voos  e chega  nas  fronteiras  mais sutis  ou mais hostis da realidade  infantil,   onde o adulto não poderia imaginar que  um olhar infantil pudesse chegar. 
O projeto “Aprender nas Ruas” (ISERJ), coordenado pela professora Bia Albernaz, do curso de Pedagogia, em parceria com o projeto “Ônibus da esperança” (Bus der Hoffnung), realizado pela professora Criz Muniz, da Brinquedoteca da Educação Infantil, concebeu um programa de visitas pelo Rio de Janeiro com 10 crianças, de 7 a 14 anos, que teve início com a realização de um   passeio fotográfico pelo próprio ISERJ-Instituto de Educação do Rio de Janeiro. O objetivo era que elas fotografassem espaços nunca antes transitados por eles. Captar a sensibilidade deles e transferi-la para a nossa realidade nos levou (aos adultos da equipe, que também contava com quatro monitoras da Pedagogia) a ler paisagens e  lugares que conhecíamos, sob a luz de um  olhar investigativo e surpreendente, que nos   trouxe momentos de beleza, alegria e inquietação.

Os lugares do  percurso fotográfico realizado com as crianças foram  previamente escolhidos, como o Salão Nobre e o Torreão. Apesar de dispormos de um roteiro, as iniciativas e reações foram livres para que cada um fotografasse o que desejasse. Com a câmera na mão, lá foram eles. E deu muito certo, talvez porque não seja preciso muito para se compreender que “ver está muito além de enxergar”, como lembra Evgen Bavcar. Quem foi ele? Para ver o trecho do filme “A janela da alma”, clique AQUI.
Mas, caminhemos mais um pouco com as crianças e suas iniciativas fotográficas. 
Passando pelos lugares do Instituto, com as crianças, percebemos o quanto é importante cada um buscar o seu foco, o seu caminho.
No terceiro andar da instituição, as crianças fotografaram a exposição da Comissão da Verdade montada para lembrar os 50 anos do golpe de Estado, dando início à ditadura militar com a ocorrência de perseguições e tortura de presos políticos no Brasil.

A vida, nestes momentos, transita  pelas fronteiros do passado e do presente e do que é bom e ruim.


Ainda de acordo com Evgen Bavcar, “o mundo perdeu a sensibilidade de olhar e vivemos uma fase de cegueira generalizada e numa mídia que propõe e impõe uma imagem pronta a ser consumida”.
A fotografia auxilia o processo de acompanhar os nossos pequenos em outras esferas para que o olhar da infância, carregado de fundos imaginários dentro de cenários reais, faça com que a emoção aflore e se registre na imagem... Nosso equilíbrio interior depende da nossa capacidade de nos emocionarmos.
O que busca uma criança quando mira uma câmera? Muito mais do que uma imagem. Nesse momento, eles se tornam autores do próprio percurso, seja mágico e doce, seja trágico.

6 de janeiro de 2014

A participação da criança na cidade 5 - Ouvindo as crianças

                                                                                                                                         Márcia Fernandes
                 Na quinta postagem da série " A criança e sua participação na cidade", trazemos o conceito de cidade amigável,  ou seja, como a cidade pode se tornar parceira da criança, ouvi-la e sobretudo colocar  em prática as contextualizações de sua fala através de mudanças e alterações positivas em seu bairro, sua rua, sua cidade.
           Vários projetos foram apresentados no seminário, projetos que saíram do papel e foram colocados em prática em várias cidades com a participação efetiva das crianças junto ao poder público, sob a tutela de ongs e instituições interessadas em transformar a escuta em ações no espaço integrado de convivência intergeracional.
              Se a cidade foi planejada e pensada por adultos então como as crianças se adaptam a esses espaços, como podem modificá-lo, torná-lo mais lúdico, e se apropriar de praças, jardins, campinhos e terrenos baldios?
              O primeiro projeto - Pensando e planejando a cidade - aconteceu numa escola municipal em São Paulo. As crianças foram ouvidas sobre a rua da escola e, após a coleta de dados e informações, os participantes chegaram à conclusão que a rua era muito triste e escura. A primeira ação foi pintar as calçadas, colorir os muros e  plantar árvores. A rua ficou mais alegre e convidativa e também fez mais sucesso na escola.
          Um desdobramento desse mesmo projeto foi uma conversa com as crianças da escola sobre o espaço de brincar. O que se notou e ficou registrado é que os brinquedos já não eram tão interessantes, não proporcionavam novas emoções, tal como disseram as crianças. Junto com um arquiteto, as crianças projetaram então novos brinquedos que, através de uma iniciativa privada, foram montados nos espaços existentes. Note-se que as ideias foram pensadas pelas crianças e só então adaptadas às possibilidade de criação, montagem e funcionalidade pelo arquiteto. O grande sucesso fez com que o projeto se estendesse a outras escolas do bairro.  
             Outro projeto desenvolvido em duas comunidades  do Rio de Janeiro, Santa Marta e Chapéu Mangueira foi a montagem de um mapa afetivo a partir da indicação, pelas crianças, dos lugares significativos para elas dentro da comunidade, espaços onde moram, circulam,  estudam, brincam e também aqueles onde não podem ou não costumam ir.
           A metologia desse projeto consiste em trazer para as crianças um mapa ampliado da comunidade onde são feitas  anotações e marcações dos pontos da comunidade pelas crianças.  Elas escrevem em cartões os nomes dos lugares (campinhos, buraco, pedra do urubu, escolinha) e acrescentam no mapa, podendo-se complementar com histórias e  vivências a respeito desses locais por qualquer um do grupo. Aos poucos o mapa passa a ganhar uma feição mais afetiva e os lugares passam a ter enredos, positivos ou negativos. Dessa forma, o contexto históricos dos lugares  da comunidade passam a ser conhecidos. A proposta é trazer a informação dos diferentes usos que as crianças fazem desses lugares e os seus desejos de mudanças.
              Mas nem sempre os projetos pensados alcançam os voos esperados. Na Vila Autódromo, Rio de Janeiro, os moradores sofrem  uma constante ameaça de remoção por parte da exploração imobiliária e dos grandes eventos esportivos que a cidade sediará nos próximos anos. Lá  foi montado um Plano Popular da Vila Autódromo (para acessá-lo, clique aqui). Esse plano de desenvolvimento urbano, econômico, social e cultural foi pensado junto com a  comunidade, arquitetos e engenheiros e apresentado à Prefeitura a fim de se criar uma estratégia que possibilite a manutenção da comunidade no local em que vive há mais de vinte anos. Alguns moradores possuem inclusive concessão de direito real de uso, o que cria o impasse junto ao poder público mas infelizmente o projeto não foi aceito pela prefeitura do Rio de Janeiro e os moradores seguem na luta.
         Ainda relacionado ao Plano Popular da Vila Autódromo, houve uma bela  iniciativa do  Laboratório de Cartografia junto às crianças da comunidade: a montagem do mapa afetivo (para acessá-lo, clique aqui).
               Pela leitura do mapa, percebe-se o quanto as possíveis intervenções, remoções, despejos, entre outros acontecimentos  a serem realizados nos  espaços  de morar das pessoas, sejam eles na favela, numa vila ou num lugarejo acarretam mudanças socio-econômicas, culturais e mais ainda psicológicas nos moradores que ali residem. Suas vidas foram construídas a partir dos laços afetivos estabelecidos numa determinada esquina, num campo, numa sombra de árvore, num bar ou perto de um muro. E os novos caminhos tomados pela opção de tornar o Rio de Janeiro numa cidade-evento  engole essas histórias e rouba memórias, destruindo paisagens psicossociais (cf. Suely Rolnick, Cartografia, 1989).
              As mudanças na cidade causam impactos em todos: idosos, jovens e principalmente nas crianças, que constroem as suas histórias a partir das memórias comunitárias. Assim, o aterramento de suas raízes e de suas referências culturais e sociais trazem impactos muitas vezes nunca superados, por se tratarem de interrupções da  construção de suas próprias memórias e das suas histórias significativas. Ouvir as crianças, conhecer suas sugestões e ideias é um grande passo para que o conceito de cidadania comece a ser exercido. Daí a relevância de se pensar numa cidade mais amigável,  que  reconheça a criança como sujeito de direitos. 
              Termino a postagem falando de um documento recentemente criado pela Rede Nacional da Primeira Infância. O Plano Nacional pela Primeira Infância (para acessá-lo, clique aqui), que assegura direitos até os seis anos, tem como um dos seus principais objetivos a criação de metas e ações para que a criança cresça como um  pequeno cidadão, além de garantir  seus direitos nos próximos doze anos.  O Plano destaca a 27ª Sessão Especial da Assembléia das Nacões Unidas (clique aqui para saber mais), ocorrida em maio de 2002 que discutiu Um Mundo Melhor Para as Crianças e apontou dez importantes compromissos e princípios básicos  para os governantes do mundo a fim de assegurarem uma melhor infância. Desses, sublinho aqui o de número nove: Ouvir as crianças e assegurar sua participação.
Que as cidades possam acolher e ouvir mais as crianças!

11 de dezembro de 2013

Brinquedos de ontem e hoje - relato de um Congresso (UFF /2013)

                                                                                                                                                                                     Cris Muniz
Fomos ao Congresso de Brinquedos de Ontem e Hoje apresentar um relato preliminar do projeto Canteiro de Obras na “Ciranda de ideias”, uma modalidade muito interessante de troca de experiências na forma de conversa entre pares. Ali estavam presentes outras iniciativas de caráter não formal, assim como as brinquedotecas, a maioria de escolas de formação de professores, para refletir os limites e possibilidades de um trabalho com o lúdico na formação docente.
          Gostaria de compartilhar aqui algumas questões apresentadas neste evento por Jader Janes, um professor do grupo de pesquisa em Geografia da Infância que penso dialogar com nossas investigações/inquietações. Os estudos desse grupo pensam a criança como um ser geográfico considerando o espaço uma dimensão significativa para sua vida em sociedade e investigam o que definem como territorialidades infantis. Segundo Janes, a investigação da Geografia da Infância busca a forma como a categoria da espacialidade é concebida e como interfere em nossa relação com as crianças e na produção de suas infâncias.
          A pesquisa apresentada no Congresso discutiu o conceito de evolução linear da noção de espaço – do mais próximo para o mais distante – presente nos currículos escolares. Esses gradativamente constroem os diferentes níveis ou dimensões do espaço – eu/minha casa, minha sala, escola, bairro, cidade,  mundo, problematizando as relações entre o mundo e o que está aqui próximo. Esses questionamentos partiram da pesquisa desenvolvida pelo grupo com crianças migrantes. Nelas, a lógica espacial ensinada nas escolas não apareceu, o que aponta para a possibilidade de pensar outras geografias e outras escalas, e para a ideia de topofilia indicada pelos elos afetivos entre a pessoa e o lugar ou seu ambiente físico.
          As crianças migrantes estudadas, mas também outras envolvidas na pesquisa autodenominam-se mudantes – aqueles que mudam constantemente de moradia dentro da própria cidade – e demonstram possuir uma noção de espaço/lugar próximo não como referência espacial, mas afetiva.  O lugar mais destacado pelas crianças migrantes/mudantes foi a escola, especialmente os seus lugares de brincar e de comer, como o refeitório, evidenciando-se aí a prática do territoriolugar em uma escala vivencial, e remetendo ainda à ideia de paisagem que, para além das formas, comportam também cheiros, sons, sabores...
Livro lançado por Jader Janer em 2013 pela editora mediação
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Rememorando passeios:
Topocídio e Autointerdição


          Durante seu relato, Jader comentou ainda a ideia de topocídio ao se referir às remoções de populações pobres de seus lugares/moradias (hoje, como ontem, tão presentes em tempos de Copa do Mundo e Olimpíadas!). Essas reflexões me fizeram recordar alguns passeios que fiz com crianças do CIEP de Ipanema logo no início do projeto Ônibus da esperança (Bus der Hoffnung). Creio ser possível pensar em um tipo de topocídio ao inverso pelo qual moradores de determinados lugares não podem se mover ou pior não se permitem nem mesmo sair.
          Foi isso que senti, por exemplo, quando propus nosso mais longo passeio à cidade de Petrópolis anunciando, com os termômetros recém-chegados à escola para aulas de geografia, que teríamos que subir a serra com lindas montanhas muito altas e iríamos perceber as mudanças de temperatura e tudo o mais. O que aconteceu? Algumas crianças simplesmente não apareceram no dia do passeio. Soubemos depois, com medo de cair lá de cima das montanhas. Outras passaram mal quando paramos no alto da serra, achavam que não estavam mais respirando. Com esse mesmo grupo, em nosso primeiro passeio ao Jardim Botânico/RJ, fui interpelada pela funcionária do orquidário preocupada se as crianças não iriam destruir as orquídeas, ao que não me contive e respondi que elas já haviam comido as carnívoras antes! Depois disso, no caminho de volta deste mesmo passeio, descemos na orla da Lagoa e fomos a pé até a rua Teixeira de Melo, em Ipanema, que dá acesso ao elevador para o CIEP Ipanema, e aí então foram as crianças que, refratando talvez a experiência vivida, me interpelaram perguntando se poderiam andar ali, se não seriam chamadas de faveladas?! Enfim são muitas as exclamações pela interdição ou autointerdição de acesso aos lugares, pela falta de oportunidade de viver lugares experiências, esses onde podemos nos sentir imersos na cidade, pertencendo a ela como qualquer cidadão.

A participação da criança na cidade 4 - Infância e Cidade

Márcia Fernandes
Nesta quarta postagem da série "A criança e sua participação na cidade" trazemos várias perguntas levantadas pela Dissertação de Mestrado da palestrante Fernanda Muller e pelas colocações da coordenadora de comunicação da UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância), Imaculada Prieto.  Trata-se de uma reflexão sobre as políticas públicas e as ações sociais voltadas para as crianças. Elas as atendem de fato? Até que ponto são bem-sucedidas? Enfim, em que medida a infância pertence à criança? As concepções da criança sobre a cidade podem gerar novas concepções sobre a infância? Que contribuições podem ser feitas pelos estudos das crianças?  Que medidas possibilitam e limitam a participação da criança na cidade?
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          Em sua pesquisa Infância e Cidade: a criança em foco, Fernanda Muller diz: "a infância moderna constrói a criança fora da sociedade, silencia suas vozes e nega a sua autonomia. Será que a modernidade rotula uma infância moldada e propositalmente pensada e desejada pelos adultos e não pelas crianças? Silencia suas vozes?" E se nos permitimos olhar pelos olhos da criança, fazendo este exercício que a autora chama de exercício de percepção e escuta infantil, conseguiremos pensar como a criança? Para a autora, a chave está em poder enxergar a criança como um agente social.
          Com um grupo de crianças em Porto Alegre, ela observa como acontecem as entradas e as permanências no campo da diversidade. Para isso, ela lança mão de uma metodologia que leva em consideração a amplidão do conceito de cidade pois esse é um conceito abstrato, diferente no pensamento de cada um, já que relacionado às experiências de cada pessoa.    
          A palestrante falou sobre a metodologia usada na pesquisa  – o recurso da fotografia – , junto a três grupos de diferentes bairros de variadas classes sociais. Após uma incursão fotográfica, promoveu-se uma conversa com as crianças que relataram o que  acharam mais e menos interessante nesse passeio fotográfico.
          Dar a criança esse tipo de autonomia é trazer à luz o seu conceito de espaço, de tempo e de mundo, diferentes do adulto e divergentes, muitas vezes, do conceitos aprendidos na escola e da família. Essa autonomia conceitual (Marchi, 2007)  dá visibilidade às interações infantis, tal como mostradas no documentário premiado pelo Oscar Nascidos em Bordéis que retrata a vida de crianças no bairro da Luz vermelha em Calcutá e filmado a partir de incursões fotográficas feitas pelas crianças em que elas registravam as suas impressões sobre as ruas do bairro.  A fotografia, dessa maneira, torna-se uma ferramenta de expressão e de voz dessas crianças para o mundo.
          Fernanda Muller propõe, na conclusão de seu trabalho, que – para se chegar às crianças – é importante que essas sejam  incluídas  nas discussões sobre a cidade que habitam, isto é, que ouçamos a voz das crianças. É que proponhamos um novo modelo de cidade a partir do seu ponto de vista. Enfim, saber quais seriam os  modelos de cidade propostos pelas crianças.
          A autora salienta que é preciso que se  promovam novas ideias sobre quem tem o direito de usar os novos espaços urbanos, obedecendo aos princípios tanto de agência quanto de estrutura. Desse modo, ela traz a novidade da  cidade como laboratório público e as crianças como membros das discussões políticas.
Nascidos em Bordéis (86', 2004). Born Into Brothels: Calcutta's Red Light Kids. Dir: Ross Kauffman e Zana Briski.  Premiado nos mais importantes festivais internacionais, incluindo Sundance e a International Documentary Association, essa co-produção EUA/India é assinada por dois cineastas que narram sua experiência em Calcutá, quando conheceram de perto a vida dos filhos de prostitutas que trabalham na área dos bordéis da cidade.
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          A coordenadora de comunicação da Unicef no Rio de Janeiro, Imaculada Prieto, trouxe para o debate o tema O direito ao direito, em relação a Comunicação, Infância e Cidade, isto é, como aconteceram os diferentes momentos e aspectos na trajetória da reformulação do direito infantil, considerando que esse se dá principalmente através da expressão, participação e divulgação, independente dos meios e  das fronteiras.
          Ao destacar a importância da participação, Imaculada Prieto demonstra sua sintonia com o Estatuto da Criança e Adolescente como uma expressão do direito ao direito através de iniciativas que passam a ser construídas em torno da criança. Várias  crianças, de várias cidades e culturas passam então a fazer parte da cena: a indígena, a quilombola, a especial etc.

          Pensando neste direito universal, que deve valorizar a integração social, levando a criança a participar e a exercer sua cidadania, se consegue atingir outros objetivos, ou seja, a ter direito a outros direitos. Participar, sugerir, criar propostas em sua cidade é um exercício de valorização estratégico que visa superar as desigualdades sociais.
          Um município, portanto, precisa abrigar uma cidade infância e não uma cidade de infância moderna. Somente através da cultura da participação infantil em seus próprios espaços se conseguirá redimensionar esses mesmos espaços de pertencimento social da criança.  Para tanto, é preciso que se permita a participação infantil no diagnóstico de soluções para mudanças nas políticas públicas em sua cidade.                                        

23 de novembro de 2013

A participação da criança na cidade 3 - A favela e a cidade na perspectiva infantil

Márcia Fernandes

                 Nesta terceira postagem da série de postagens que resumem um dia no seminário  "A criança e sua participação na cidade" promovido pelo CECIP, trazemos a perspectiva da criança sobre a cidade e a favela. Consultá-las  foi um grande avanço, pois as contribuições que surgiram após essa escuta trouxeram novas soluções  para se pensar o futuro da  cidade –  uma cidade construída para as crianças e pelas crianças.
                  Essa participação da criança nas mudanças da sua cidade também é um conceito de aprendizagem, tanto para a criança quanto para o adulto, que participa dessa mediação social e precisa estar imbuído deste conceito do aprender.
                        Construir práticas para a promoção da criança como cidadã é criar caminhos para que essa cidadania nasça ainda no seio da família. Na verdade, trata-se de  uma construção de educação identitária, pois busca o reconhecimento do pequeno cidadão como sujeito de direitos.
                        Mas como a criança pode participar dessa construção sem que seja manipulada e sem que seus mediadores decidam o que ela quer?  Mais do que isso, sem que se limite ao que se espera dela? Através da escuta de suas ideias.  Esse processo, portanto, não corresponde apenas a um modelo de participação, mas sim a um exercício de ouvir a criança. O melhor modelo de participação reside na tentativa de organização da própria criança com os seus pares, junto a  uma participação direta nas ações implantadas em sua comunidade, seu bairro, sua cidade.
                     Durante as discussões em torno de metodologias, no Seminário, algumas teses foram apresentadas. Uma delas resumiu a pesquisa de doutorado de Beatriz Corsino Pérez, na UFRJ: Noção de Cidade, resultados da  pesquisa realizada em comunidades, a dicotomia: asfalto e favela e o Projeto Criança Pequena em Foco.
                     Sobre a noção de cidade, a autora traz a reflexão de que a criança já nasce numa cidade planejada, ou seja, num espaço construído, onde tanto a criança  quanto  o adulto têm de se adaptar. Essa cidade idealizada  é transformada e modelada sem a   participação ou opinião de seus moradores e principalmente das crianças. A pesquisa de Beatriz Corsino, realizada nas comunidades  Chapéu Mangueira, Santa Marta e Babilônia, na zona sul do Rio de Janeiro, ouviu os relatos das crianças sobre o que elas gostariam que fosse modificado em sua comunidade e o que elas gostariam que fosse conservado. Este momento foi também a oportunidade de conhecer um pouco mais a criança que vive nestes espaços e como elas veem a relação entre asfalto e favela.
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                   O conceito de infância ainda está focado na ideia de criança concebida no século XVIII, no qual se insere a noção de pensamento como um campo universal idealizado em moldes europeus, sem incluir a concepção de evolução, nem situar quem é a criança sobre a qual se fala e qual a sua realidade.
             A infância moderna ainda é vista pelo Estado dentro dos modelos europeus sem as referências específicas, como por exemplo as da cidade do Rio de Janeiro. E o que é mais importante: em relação a este modelo de infância, a criança da comunidade corresponde a uma má infância.
               É urgente, portanto, entender quem é essa criança, assim como compreender que essa infância passou pela modernidade acompanhada de todos os desafios e circunstâncias em seu entorno, enfim que ela existe sim, mas em relação a um conceito diferente do que comumente se propõe. Além disso, é preciso reconhecer que não há nenhum modelo de participação previsto para a criança dentro da cidade.
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                   Logo, a ideia de ação que se propõe é que se faça surgir um amor pela cidade dentro de uma perspectiva voltada para uma infância contemporânea. Tal ação foi pensada no Projeto Criança Pequena em Foco, desenvolvido nas comunidades dos morros de Santa Marta e Babilônia   cujo objetivo foi promover espaços de trocas entre a criança e o poder público. Neste projeto, algumas perguntas foram pensadas para estabelecer estratégias relacionadas ao foco proposto. Algumas delas são: Qual a relação das crianças com o lugar que vivem? Como é a cidade na perspectiva  dessas crianças? A comunicação inicial com as crianças foi difícil, por isso foi criado um passeio fotográfico e se chegou a algumas respostas.
                 A relação da criança com o lugar que vivem é mediado pela visão das crianças de ambas as comunidades de que este é o lugar da família.  Pelas  fotografias, respostas foram sendo construídas. Através dos lugares escolhidos foi possível entender a noção de espaço de família e ao mesmo tempo de espaço construído.
             Na Babilônia, as crianças caracterizaram a sua comunidade como sendo um lugar para brincar. O espaço ali é muito arborizado e o fator “natureza” é importante para o dia a dia das crianças, cujas brincadeiras incluem constantes subidas em árvores. Chega-se assim a um tipo de experiência distinta de outros espaços considerados de  boas infâncias segundo o olhar do poder público.
             Contudo, as crianças do morro da Babilônia reclamaram das moradias  sem estruturas e relataram a perda do  Campinho, que era um espaço de apropriação de brincadeiras como jogar bola e bolinha de gude, modificado pela Prefeitura sem a consulta dos moradores e principalmente das crianças que mais utilizavam o espaço. O espaço foi aterrado e se tornou uma área acimentada!
              A relação com a cidade, ou seja, a perspectiva de cidade é relatada pelas crianças como a do encontro entre a favela e o calçadão (de Copacabana). Este momento é retratado como uma experiência estritamente urbana, de encontro com estranhos que não fazem parte do cotidiano e das vivências dessas crianças segundo elas mesmas.
             Na comunidade do morro Santa Marta, sobre a relação das crianças com o lugar em que vivem, muito foi falado sobre o bondinho ou teleférico, como sendo quente e apertado, e sobre a pracinha da comunidade que possui muitos brinquedos quebrados.
            Para as crianças do Santa Marta, o   conceito  de cidade  está relacionado ao momento de diversão, a ir para o calçadão, poder ir ao shopping e visualizar os prédios,  em relação aos quais nutrem um imenso desejo de morarem algum dia.
          Dentre as considerações finais das  pesquisas, a autora destaca a falta de interesse  em ouvir e dar espaço à participação das crianças nas mudanças feitas em suas comunidades, o que reflete diretamente em suas vidas e principalmente em sua infância.

Então, vamos ouvir as crianças! Até a próxima postagem.
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Escute a menina Severn Suzuki na Conferência da ONU por ocasião da ECO-92