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9 de abril de 2015

Os intermediários - os lugares sob a lente fotográfica de uma criança - Parte 2

                                                                                                           Márcia Fernandes
          O que busca uma criança quando mira uma câmera? É muito mais do que uma imagem; é um momento em que eles se tornam autores do próprio percurso, seja ele mágico, doce ou trágico.
        O percurso de Molhen  Bakarat era trágico, mas ele o fez mesmo assim.
        Mas quem foi Molhen  Bakarat?  Sua identidade foi revelada depois de sua morte, em Alepo, Síria, em meio a um conflito de guerra, na semana de Natal de 2013.
       Bakarat entrou para o fotojornalismo, valendo-se de uma oportunidade ou por falta dela. Podia escolher entre ser um homem-bomba em seu país ou aproveitar a facilidade em transitar  nos becos de Alepo. Não sendo aceito pelo seu Estado  para ser um homem bomba, por ser um adolescente "moderno", de acordo com os costumes culturais exigidos para a função, e podendo ir a lugares que somente a população local poderia chegar, entrou para o fotojornalismo.
          Retratava o cotidiano da população, os momentos de desespero, desolação, de  alegria fugaz  e de intimidade, tudo o que somente a convivência compartilhada propicia. Fotograva com sensibilidade e liberdade.
          Com apenas 17 anos, se tornou fotógrafo de guerra, testemunha e vítima. Um jovem pertencente à população local, como tantas outras crianças, que se tornou uma opção, uma salvação para os  jornalistas ocidentais  que embarcavam nessa aventura arriscada de cobrir os conflitos na Síria.
      Bakarat era um garoto comum: gostava de Kate Perry, usava  jeans  e camiseta e  um estiloso  casaco com brasão da Grã-Bretanha.  Sua  foto de perfil no  Facebook  era a de um menino. Parecia feliz com um largo sorriso no rosto.
      Vendeu fotos que renderam milhões para a Reuters. Por 15 fotos, ganhava pouco mais que 100 dólares. Morreu sem capacete e sem colete à prova de balas. A agência de notícias Reuters noticiou a sua morte, mas não revelou a sua idade. Por que?
     Molhen foi salvo de se tornar um terrorista?  Mas morreu pelo terror, por diferentes pesos, mas pelas mesmas medidas. O seu percurso foi curto, mas intenso.
     A guerra continuará, mas a maneira como jovens, crianças que por estarem e fazerem parte da zona de perigo são tratadas como peças de um jogo de xadrez fotográfico, devem ser questionadas.
Molhen e a fotografia, o perigoso percurso do conflito.
          Para nós resta a lembrança; para a Reuters, uma nota: “A segurança de nossos jornalistas, sejam eles funcionários ou freelancers, é primordial…” SERÁ? Com certeza, não. Sem identidade revelada, sem idade divulgada. ( Cf. http://revistazum.com.br/colunistas/sangue-novo-na-guerra/)

2 de fevereiro de 2015

Água! Água! Hay quien se importe en la ISLA URBANA

ISLA URBANA é uma ong de captação de água no México que procura soluções urgentes e imediatas para o suprimento de água em localidades onde as pessoas vivem com pouquíssima água, muito menos do que seria necessário, segundo critérios da Organização Mundial de Saúde (OMS). Ademais, essas famílias que não dispõem de água corrente gastam, muitas vezes, um dia inteiro  para conseguirem, em outras localidades, cerca de 10 litros para o consumo de toda uma família.
SABEMOS que a falta da água é um sintoma de falência do atual sistema de desenvolvimento sócioeconomico e de padrão de ocupação do espaço (urbano ou não), principalmente em países da América Latina. Por isso, é muito importante não só tomar medidas imediatas, tais como as que promovem a captação de chuvas, difundidas pela ong Isla Urbana, mas também buscar outras medidas de contenção do consumo, que impeçam a privatização do abastecimento de água nas moradias.
LEMBREM-SE, esse é um serviço oferecido aos cidadãos pelo Estado, em contrapartida pelo pagamento de impostos. Enfim, fica a dica e o questionamento. Boa sorte a todos nós e aos da Isla Urbana!

14 de fevereiro de 2014

Aprendendo com os monstros1 - Javier Toret



O encontro "Outros monstros possíveis. Pobres, índios, imigrantes, loucos: Mestiçando a cidade...”,
organizado por Giuseppe Cocco (PPGCO/UFRJ e Universidade Nômade), Lia Calabre (FCRB),
Mauricio Siqueira (FCRB) e Emerson Mehry (UFRJ), acontece na Fundação Casa de Rui Barbosa.

No dia 14 de novembro de 2013, das 14 às 18h, foram convidados para o debate
 Poéticas das redes e das ruas
 Paula Kossatz (Mídia Ativista), Javier Toret (UOC- Barcelona, Espanha), Larissa Bery (Dona Baratinha), Rafaela Miranda Rocha (Coletivo Projetação), Rodrigo Modenesi (Morre Diabo) e Itála Isis (Movimento Cidade Invisíveis).

O que é e como se dá a participação política?
Quais os caminhos possíveis na realização da transformação social no atual contexto histórico, em que o interesse dos bancos e das grandes corporações se sobrepõem aos direitos dos cidadãos já declarados como universais?
Para enfrentar esses monstros, eis outros possíveis.
***
Javier Toret – o monstro na rede

Cheguei e Javier Toret já estava com o microfone na mão. Falava super rápido, e em espanhol. Optei por pescar na sua fala alguns termos e anotar todos os endereços na rede por ele mencionados.

Esta postagem  é o resultado de uma pequena pesquisa na rede, partindo das indicações feitas por Javier Toret, em sua apresentação sobre a atuação da assets.outliers (web design, visualização de dados e ensaios cidadãos, segundo o site) nas manifestações populares na Espanha a partir de 2011. 

O termo assets é muito utilizado em gestão de recursos financeiros (assets management) mas a palavra se refere a um universo mais amplo, no qual se incluem as noções de posse de bens ativos, como qualidades e vantagens que extrapolam a visão contábil do mundo, humanizando-a.

Quanto a outlier, aprendi que a expressão vem da estatística, e refere-se à observação de dados amostrais insignificantes porque muito dissonantes. Em geral, nas análises estatísticas, estas observações são descartadas, por destoarem demais da opinião média. Mas, questiona Javier Toret, se são essas as informações que, precisamente, fornecem  os mais valiosos insights e dados mais ricos, mais produtivos para a interpretação da amostra, por que descarta-las?
Bia Albernaz
Os assets.outliers.es trabalham com esses dados nas redes sociais, tornando-os visíveis. De um ponto de vista antropológico, analisam essa diversidade de informações em trânsito nas cidades, e as transformam em dados, nutrindo gráficos e pesquisas que as tradicionais empresas de marketing, voltadas para a pesquisa de opinião e para a montagem de perfis de consumidor, costumam desprezar.
Visor de emoções do dia 15 de maio de 2011. Elaborado por Oscar Marín Miró http://assets.outliers.es/15memociones/
Dessa maneira, traduzem as cidades reais em cidades virtuais, sempre com base no modelo bottom-up. Bottom-up?!
De acordo com a Sebrae, o desenvolvimento “bottom-up” é um modelo complementar (e não oposto) ao modelo “top-down” na geração de trabalho e renda nos municípios brasileiros. De fato, na internet chega-se a vários endereços onde se pode ler a respeito do tal modelo bottom-up, mas apenas em alguns casos a sua menção se dá tendo como pano de fundo um contexto político propriamente dito, tal como citado por Javier Toret. Ao que parece, o modelo está catalogado, nomeado e alastrado, seja como exercício de retórica, com tom propagandístico, seja como jargão ou gancho para facilitar a comunicação. Parece-me que o uso dado por Javier ao termo se encaixa na última hipótese, mas também como se a referência a esse modelo fosse uma bandeira ou um escudo, pelas possibilidades abertas por ele em relação à negociação e à construção de consenso em ações civis. 
*** 
 Agora DRY
Outro termo do jargão de Javier Toret é DRY. Segundo a Wikipédia, trata-se de um acrônimo de Don't repeat yourself. (Em português seria  Não repita a si mesmo”.) Mas isso é no jargão do programador de informações em sistemas.

Pesquisando mais, descobri que DRY é também uma sigla criada no contexto político das manifestações civis na Espanha. Para ampliar a participação, foi criada a plataforma ¡Democracia Real YA! (DRY). Os dados a respeito são fartos e fáceis de encontrar na rede, já que a intenção era justamente essa: possibilitar que as ideias em circulação nas ruas se propagassem em um ambiente de fácil navegação e alta interatividade, para viabilizar uma participação mais ampla, horizontalizada e sem lideranças.
 O movimento na Espanha começou com a ocupação da praça principal em Madri – a Puerta del Sol – em 15 de maio de 2011 e se alastrou para 57 outras cidades. Sua motivação foi denunciar o modo como as grandes empresas e os bancos dominam as tomadas de decisão nas esferas políticas e econômicas, e exercitar a democracia participativa e sem hierarquias. Na plataforma DRY defende-se a democracia direta através de assembleias populares e a busca de consenso.

A inspiração para o DRY foram os avanços obtidos pela população da Islândia em sua crise financeira de 2009, pela Primavera Árabe, pelos protestos na Grécia em 2010 e 2011 e pelas revoluções na Tunísia no mesmo período. Contudo, em abril de 2012, alguns daqueles que iniciaram a plataforma DRY racharam, criando uma organização paralela cujo nome é o mesmo daquela da qual partiram!

Na bibliografia básica dos ativistas do DRY, encontra-se o pequeno tratado de Stéphane Hessel (Indignai-vos), escrito no final de uma trajetória que passou pela Resistência Francesa durante a 2a Guerra Mundial.
O conteúdo do livro pode ser visualizado AQUI.
Também na Espanha, como em protestos em várias partes do mundo, a violência por parte de policiais e de manifestantes se fez e se faz presente, constituindo-se como um fator de desagregação e de abandono de militantes mais pacíficos, temerosos ou cautelosos. Na plataforma DRY, encontra-se um Manifesto que busca transcender a linguagem política das instituições partidárias e sindicais, consideradas pouco confiáveis em nossos dias. A ênfase está na cobrança ao governo para que ele assuma sua responsabilidade diante dos cidadãos, garantindo a todos condições dignas de vida. O Manifesto também critica o consumismo e o hedonismo, que alimentam uma rede perniciosa de endividamento para o indivíduo e de desgaste energético do planeta. Alguns das organizações signatárias do Manifesto são: NoLesVotes; Plataforma de Afectados por la Hipoteca; Asociación Nacional de Desempleados; Juventud Sin Futuro; Attac España; Ecologistas en Acción; Estado del Malestar; Occupy Hispania - Iberia - Lusitania Indignados # Iberian R-Evolution & Unión União Unió Ibérica

A questão é:
indignados em geral não recebem bom tratamento dos governantes,
já que em geral esses são os alvos da indignação.
***
Outra noção citada por Javier Toret foi Identidade Coletiva, conceito presente na Psicologia Social, sobretudo quando se trata de entender o que vem a ser a identidade social.  Na Antropologia, o termo também circula. Joseph Jordania, etnomusicólogo, defende que a identidade coletiva foi crucial para a sobrevivência humana diante das forças da seleção natural. De acordo com ele, a identidade coletiva permite a suspensão do medo e da dor dos indivíduos em situações de combate, das quais os humanos não têm a memória. Em situações-limite, a identidade coletiva exacerba-se. São os momentos em que as pessoas se dispõem a perder as suas vidas por um objetivo coletivo, como a sobrevivência de seus filhos ou do seu grupo.

No cotidiano, essa alteração de consciência demonstra-se pela capacidade humana de seguir o ritmo de grandes grupos, como acontece em corais (Jordania é um maestro de corais) ou no carnaval, por exemplo. Nesse estado de Identidade Coletiva, a sobrevivência do grupo se sobrepõe à sobrevivência individual. 

Consciência coletiva é um termo correlato que descreve o cenário em que uma pluralidade de pessoas formam parte de uma rede, como se essa tivesse uma mente própria, parecida com uma colmeia.
***
Versão completa do Colóquio
 
No meio dos debates sobre taxa de crescimento do PIB, emergência de uma nova classe média, megaeventos e megaobras, multiplicam-se resistências que se manifestam monstruosamente...

 Como cheguei atrasada, não ouvi a primeira fala, de Paula Kossatz (Mídia Ativista).
Relato de Bia Albernaz

11 de julho de 2011

As forças centrípetas da cidade

          Relendo um trecho da entrevista de Milton Santos, em 1999, à Revista Teoria e Debate, da Fundação Abramo (leia a íntegra da entrevista aqui), fica-se entusiasmado com o "espírito transformador" que uma cidade pode ter. 
          Ao responder sobre a diferença entre o campo e a cidade, ele alerta para a "esquizofrenia do território", mas também reconhece que há maior vulnerabilidade no campo. Não por acaso vimos notícias alarmantes de uma série de assassinatos de lideranças políticas no norte do país. As notícias esfriaram mas isso não quer dizer o clima por lá esteja ameno agora. Há muita gente no campo marcada para morrer.
          Diz Milton Santos que "o campo moderno é obediente; a cidade, não". Isso porque "o capital físico, fixo, não se moderniza rapidamente". Por isso, a cidade ainda atrai muita gente pobre. No caldeirão urbano, produz-se também muita gente pobre, mas outra vez o grande geógrafo faz o contraponto, as cidades fortalecem o ponto de vista da produção do futuro, da produção política, provocando uma diversidade maior da produção em termos econômicos e culturais. 
          A cidade é um ente econômico menos dependente do mercado mundial e do Estado central do que o campo. Milton Santos diz que isso a torna capaz de fazer "renascer a Nação". O termo é forte. Quem tem coragem em falar de Nação hoje em dia? 
          Quando o Estado é incapaz de administrar em conjunto os pedaços do território, há uma fragmentação dessa Nação. Como essa administração em conjunto é impossível ao Estado, cria-se uma desordem no território. A cidade é uma desordem.
          Contudo, e esse é o sopro entusiasta de Milton Santos, existe a possibilidade de ordem econômica, cultural e política nas cidades, e ela reside no olhar em direção às múltiplas formas do futuro.
          Tenho uma visão otimista,
creio que a Nação é despedaçada sobre o território como um todo
e se refugia nas grandes cidades.
É uma construção da vontade de ser cidadão
e que deverá se materializar em participação política,
em uma retomada do processo de construção nacional.
Essas são as forças centrípetas.

          Três anos depois dessa entrevista, leio um artigo (O Globo, dia 11/07/11) de um cronista espanhol do jornal El país, Juan Arías, em que ele pergunta "Por que os brasileiros não reagem?". "Nem sequer os jovens, trabalhadores ou estudantes, manifestaram até agora a mínima reação ante a corrupção daqueles que os governam."
          O artigo toma a corrupção como eixo: um vereador que ganha dez vezes, mais, um deputado que ganha cem vezes mais que um professor; dois ministros demitidos; aposentadorias nababescas de alguns; cidadãos desassistidos etc. Por que a cidade não se revolta?
          Ele relembra as passeatas pelas "Diretas já", as marchas contra o ex-presidente Collor e diz que o Brasil hoje está mudo; as únicas causas que levam milhões às ruas, diz Arias, são o homossexualismo e a religião evangélica. Ele fala em "brasileiros"; implicitamente ele pensa em Nação, mas pensando nas palavras iniciais de Milton Santos sabemos que os cidadãos se concentram nas cidades. O que aconteceu com as forças centrípetas da cidade?
          O que nos cala é a ignorância do futuro. Porém, a impossibilidade de concebê-lo, de olhar à frente, talvez esteja na falta de um olhar para os lados. Educação é isto. Compreender as condições do que nos envolve e, com prudência, seguir.
          Vamos olhar ao redor?

16 de maio de 2011

"Let's do it" - Estônia limpou seu lixo num dia, e nós? LIMPA BRASIL

 

Como as coisas começaram
          Em 2008, o homem mais inovador da Estônia foi Rainer Nõlvak, empreendedor e visionário que teve a ideia de fazer a campanha de limpeza nacional Let’s Do It.
          Com cerca de 10 mil toneladas de lixo ilegal espalhado por toda a Estônia, Rainer e seu grupo tiveram o plano ambicioso de limpar tudo em um dia. Foram 50 mil voluntários para limpar todos os espaços públicos, em especial florestas e áreas próximas de estradas. Mais de 40 empresas de limpeza apoiaram a iniciativa fornecendo os containers necessários e também os veículos de transporte. O projeto teve como meta reciclar 80% de todo o lixo coletado.
          Isso não seria possível sem o uso de tecnologia. Ahti Heinla, um dos fundadores do
Skype (empresa inventada na Estônia), ajudou a mapear o lixo. O Google Earth foi utilizado junto com um software que permitia voluntários fotografar as áreas de lixo e apontar onde seria necessário o trabalho voluntário.

O trecho acima foi retirado de um depoimento de um brasileiro  - Seiiti Arata - que esteve no dia histórico na Estônia (o depoimento na íntegra com o vídeo feito por ele encontra-se aqui). Confira outros trechos:
          Reflexões sobre minha experiência
          Minha namorada estava certa em dizer que essa seria uma ótima lição de humildade e gratidão. Vou tentar colocar em palavras como a experiência foi rica, mas já sei que é uma tarefa impossível.
          Esse tipo de atividade deve ser vivido em primeira pessoa: a mera tentativa de relatar ou narrar, combinada com a tentativa de ler e compreender já compromete muito do significado. Mas vamos lá.
          1. Podemos trabalhar com uma motivação além do interesse pessoal
          Sou um cara muito ocupado. Deixo meus telefones desligados por padrão, assim como email e Skype sempre fechados. Dedico apenas uma hora do meu dia para multitasking (telefonemas, email, pendências gerais) e todo o resto é aplicado em atividades estratégicas de criação de livros e programas de coaching. Sempre que aparece algum compromisso novo, eu geralmente recuso, para ficar plenamente focado no meu trabalho.
          Apesar de ter um amor enorme pelos meus pais e muitos bons amigos espalhados no mundo inteiro, reduzi o tempo de interação com todos para algo por volta de uma hora por semana. Gostaria de dedicar mais, porém decidi que este ano darei prioridade ao crescimento de minhas empresas. Outras dimensões de minha vida que tenho como prioridade são minha saúde (academia três vezes por semana, cozinhar em casa) e relacionamento de qualidade com minha namorada.
          Num contexto desse, em que espremo cada minuto precioso do meu dia para alcançar mais produtividade, não parece ser muito lógico ter dedicado três horas de um final de semana para ficar limpando lixo que outros caras jogaram no meio do mato. Mas esse tipo de atividade, feita sem qualquer interesse pessoal e em benefício coletivo, tem um significado muito especial. É o tipo de nutriente emocional, quase espiritual, que nos faz ter orgulho de fazer parte da sociedade. Ficamos despertos, aterrados.
          Foram apenas três horas do meu dia, e gastei um pouco mais de cinquenta reais comprando botas de plástico e luvas de jardinagem para evitar cortar meus dedos durante a atividade. Um sacrifício mínimo, porém muito valioso.
          Recomendo a todos. Dedicar o próprio tempo e energia para o benefício coletivo é algo muito bom.
          2. Oferecer cria felicidade
          Vou contar a verdade agora. Quando minha namorada me convidou para essa atividade, eu não tinha a menor idéia do que seria. Estava muito ocupado trabalhando e não tive a curiosidade de investigar os sites que indiquei aqui no post. Em outras palavras, eu estava vivendo como um zumbi desconectado das coisas ao meu redor. Quando saímos de casa, eu estava com meus pensamentos voltados ao que eu gostaria de fazer assim que voltasse pra casa.
          Não tinha nenhuma expectativa com relação a essa atividade, que estava julgando ser uma perda de tempo. Minto. Havia uma coisa que eu estava imaginando que seria positiva: carregar peso. Desse jeito, eu poderia poupar um dia de academia, já que a atividade seria bastante cansativa.
Não fico muito envergonhado em admitir esse meu egoísmo inicial. Dizem que uma das primeiras palavras que um bebê aprende a falar é “meu”. Mas é sabido que a gente obtém maior satisfação ao dar, e não ao receber. Se por um lado eu saí de casa meio resmungão, posso assegurar que retornei muito feliz. Valeu demais.
          3. Limpar merda é o melhor jeito de parar de fazer merda
          Outra confissão. Já teve épocas que eu joguei lixo pela rua ou pela estrada e nem pensava em qual seria a consequência. Fui meio “mano” quando era adolescente.
          Lembro de uma vez que tinha ido jogar fliperama do Dungeons & Dragons II Shadow of Mystara em fliperama, que só tinha no outro lado da cidade, no Shopping Matarazzo. E joguei uma latinha de refrigerante na rua. Um outro “mano” meu ficou indignado. O diálogo, que me recordo até hoje, foi mais ou menos assim:
          –Ô mano, vai jogar latinha no chão, porra?

          –Ah mano, não moro nesse bairro mesmo. Foda-se.
          Olha que atitude mais acefálica. Anos depois desse acontecimento, tinha evoluído um pouco e já não tinha mais esse tipo de atitude. Não faço mais parte do grupo que joga latinhas fora do lixo.
          No entanto, mesmo na vida adulta e madura, confesso que quando eu arremessava um papel em uma lixeira… e o vento atrapalhava minha pontaria de Michael Jordan, aconteceu de eu não voltar o meu percurso para pegar o papelzinho do chão. Como eu não fumo, não jogo bitucas de cigarro pelo caminho. Mas, se eu fumasse, acho que minha postura relaxada poderia perfeitamente me enquadrar no grupo das pessoas que contribuiu com as centenas de bitucas que eu recolhi ao longo da estrada.
Depois dessa experiência, posso dizer que tenho uma nova postura com relação a viver de forma educada e com respeito.
          E no Brasil?
          Não me estranharia encontrar alguns pessimistas e derrotistas soltando pérolas do tipo:
          “Ih, deixa de ser sonhador. No Brasil isso não funciona. Madame não recolhe nem merda de cachorro, quem dirá de lixo no meio do mato.”
          “Não vou limpar sujeira feita pelos outros. Tá faltando é educação pra esse povo imundo. Deviam responsabilizar as empresas que criam embalagens que não são biodegradáveis.”
          “É o governo que tem que fazer isso, afinal de contas eu pago imposto pra quê? São todos corruptos, vamos colocar os políticos pra trabalhar. Se a gente começa a limpar, daí que o governo não faz nada mesmo.”
          “Funcionou na Estônia porque é um país pequeno. O Brasil é muito grande pra fazer uma coisa dessa proporção.”
          “Certeza que na véspera de uma limpeza coletiva no Brasil as indústrias vão jogar tudo no mato, já que sabem que vai aparecer otário para limpar.”

          Será mesmo?
          Fico muito feliz em ver que no Brasil temos uma iniciativa local e deixo aqui o convite para conhecer mais e ajudar a espalhar a mensagem: Limpa Brasil.
O projeto está caminhando bem e na primeira fase já será realizado em sete grandes cidades brasileiras: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Goiânia, Campinas e Guarulhos a partir do mês de junho de 2011.
          Vamos mostrar que a gente consegue fazer acontecer. Apenas a experiência adquirida com a mobilização de cidadãos brasileiros por uma causa coletiva é um grande benefício, pois as redes de contatos e cultura criada com essa iniciativa poderão fomentar muitas outras iniciativas para o bem coletivo no futuro.
Seiiti Arata Jr. é fundador da Arata Academy.
 ***
 Saiba como mapear os pontos de lixo na sua cidade!
Para ajudar a colocar conteúdo nessa imensidão de Brasil
Entre no site www.limpabrasil.com
Seja um voluntário: inscreva-se!

          No Brasil, dada a dimensão territorial e as diferenças culturais com os países que já receberam o projeto, o Let’s do it terá um novo formato. Sete cidades, e não apenas uma, receberão a ação: Rio de Janeiro, Brasília, Campinas, Guarulhos, Goiânia, São Paulo e Belo Horizonte. Algumas delas, em dois dias diferentes. “Não faremos em mais cidades por falta de apoio de algumas prefeituras”, afirma Marta Rocha, fundadora da Atitude Brasil, empresa que coordena o Limpa Brasil Let’s do it.
          Também diferentemente de outros países, o projeto brasileiro terá duração de dez anos, com eventos bianuais. “A questão no Brasil não é limpar em um único dia. É educar. Mudar o paradigma”, explica Tião Santos, que coordenará toda a logística de destinação do material coletado às cooperativas. Segundo Tião, 40% dos resíduos gerados no Brasil são potencialmente recicláveis. Apenas 1% de fato é reciclado – e este 1% já gera 1,2 milhão de empregos para catadores em todo o país.
Tião Santos, catador e coordenador de logística do Limpa Brasil.
          O primeiro evento no Brasil já aconteceu em Brasília, nos dias 3 e 4 de junho. Em seguida, será levado às cidades do Rio de Janeiro, Guarulhos, São Paulo, Goiânia, Campinas e Belo Horizonte. No site do Limpa Brasil, os interessados em participar como voluntários já podem fazer seu cadastro. Nesta etapa, é possível detalhar o perfil do participante e de que forma gostaria de atuar: mobilizando os moradores de seu prédio, rua ou bairro; na divulgação, logística, organização ou no próprio dia da ação.
          Os participantes também poderão dar outra valiosa contribuição: enviar fotos ou vídeos de locais nos quais o lixo foi descartado irregularmente. As informações servirão de base aos organizadores do projeto para definir quais regiões das cidades contarão, no dia da ação, com um “ecoponto”.
          O “ecoponto” será o local onde os catadores receberão os materiais recicláveis e não recicláveis recolhidos pelos moradores dos bairros. No dia da ação, todos os resíduos passíveis de reciclagem serão destinados às cooperativas mais próximas do local, previamente cadastradas. O número de “ecopontos” variará de uma cidade para outra. O Rio de Janeiro terá, pelo menos, 30 pontos. Espera-se que, em cada município, o Limpa Brasil tenha a participação de aproximadamente 1% da população.

26 de março de 2011

O semeador de estrelas

Existem momentos em nossa vida que por mais que queiramos não conseguimos enxergar o óbvio. O Semeador de Estrelas é uma estátua localizada em Kaunas, Lituânia. Durante o dia passa despercebida.

Mas quando a noite chega, a estátua justifica seu nome.

Que possamos sempre ver além daquilo que está diante de nossos olhos, hoje e sempre.
Fonte: