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11 de abril de 2013

Precisamos de Rubem Braga para educar a cidade

Bia Albernaz
Rubem Braga foi um autor das cidades por onde passava. Cronista, consertava e concertava o mundo, com o mundo, na superficialidade das coisas, dos acontecimentos singelos e passageiros, revelando-lhes a beleza eterna justamente por serem efêmeros e marcantes, tocantes e reais. É preciso ler e reler Rubem Braga, colocar suas lentes e olhar o mundo do modo acolhedor e leve como lhe era próprio, e assim acolher a vertigem singularizante e deslizante de todas as coisas como significantes.

Clarice Lispector, quando chamada a escrever crônicas no Jornal do Brasil, procurou Rubem Braga e de alguma maneira, a seu modo, guardando o seu próprio estilo, comungou e reverenciou o modo e o estilo braguiano de “tomar conta do mundo”. Braga acompanhava, se responsabilizava amorosamente, cuidava das pessoas pelo simples olhar. Foi assim com o nadador que avistou ao longe e a quem não podia perder de vista até que ele alcançasse o seu destino. Foi assim com a faxineira, vítima de enchente, sobre quem ele procurou notícias num bar, com o padeiro, com uma velhinha passante em Paris, com as margens do rio de sua infância, com um certo conde, com uma borboleta amarela.
Em seu apartamento no Rio de Janeiro, nos anos 1980. Foto: Dulce Helfer (A notícia)

Tomando sua biografia, Rubem Braga é rodoviária, estação das barcas e aeroporto. Com o olhar voltado para o horizonte, é travessia de fronteiras transatlânticas. E é também interior: a paisagem das serras distantes e do mais longínquo espaço mítico.

Rubem Braga é um deslocado por opção, um viajante interiorano que nasceu em Cachoeiro de Itapemirim, estudou em Niterói e formou-se em Belo Horizonte. Partindo de lá, colaborou com inúmeros jornais e revistas de várias cidades brasileiras, de 1932 a 1990; dentre eles, o Jornal da Tarde, de Belo Horizonte, o Diário Carioca, O Estado de São Paulo, O Globo, o Correio da Manhã, o Diário de Notícias e a revista Manchete. A matéria de seus textos provém de suas andanças e das folhas do jornal. No Rio de Janeiro, cidade que adotou e onde morreu, viveu no Catete, em Copacabana e em Ipanema.

Como correspondente, foi repórter-cronista sem compromisso com “furos”, mas com o efêmero. Rubem Braga conta 60 anos da história de nosso país e de fatos externos, em sua intimidade. Cultura, economia e política na experiência cotidiana, banal. Sem o menor empolamento na linguagem, o autor dinamiza um caminho existencial dentro da cidade. Falar de vento e borboletas, sabiás e mudança de estações talvez seja típico de um tempo bossa-novista, de um olhar impregnado de lembranças, mas revisitar Rubem Braga não pode ser um ato saudosista. Se tomarmos a palavra nostalgia como possibilidade de evocação de um passado mítico, como saudades de um tempo que não se viveu, é mais do que oportuna a leitura de Rubem Braga porque estimula o processo de transcendência, para além das limitações de sua própria vida. Com a pedagogia bragueana, o sujeito começa a enxergar para além do tédio e do desejo do espetacular. Para um tempo de espetacularização da banalidade, Rubem Braga traz a visão simples do extraordinário, e aceitação do simples, sem malabarismos verbais ou imagéticos.

David Arrigucci Jr. se reporta a Walter Benjamin para falar da capacidade de contar experiências que Rubem Braga possui, sem a menor pretensão de ser um “lenitivo para as almas sofredoras”. Há inúmeros exemplos de crônicas suas em que ele rejeita o movimento de leitores que o buscam como conselheiro. Um pouco turrão, a simpatia por ele nasce justamente dessa ausência pedagógica e talvez ele não gostasse da proposta que este texto encerra, que procura convencer do quanto seria bom que os cidadãos do Rio de Janeiro lessem as suas crônicas. Despretensiosas, suas crônicas nos levam para caminhos imprevisíveis, inclusive para caminhos que não levam a lugar nenhum. Fala-se em educação formal, não-formal e informal. Pois ler Rubem Braga ajuda na educação trans-formal, aquela que media uma passagem de uma forma para outra forma, por exemplo, a passagem da visão de uma borboleta para uma crônica escrita sobre ela. Nessa passagem, o visual torna-se plástico; o auditivo torna-se música.
  
Fala-se também muito em consciência crítica mas há uma consciência a que poderíamos chamar de narrativa, quer dizer, uma consciência que aflora no processo de narrar. Implicada nesse processo encontra-se o desenvolvimento de uma faculdade que todos nós temos e da qual lançamos mão todos os dias e a toda hora. Segundo Antonio Cândido, imaginar é uma necessidade humana tão premente quanto comer. Ele disse isso ao defender o direito à literatura. Ou seja: a democracia depende da literatura para se completar. Lendo a paideia grega, apreende-se o modo como a política relaciona-se com as questões de segurança e de conquista, como não se desvincula do teatro, da poesia, da filosofia ou da crônica da história.

Rubem Braga é um cronista paideumático, dentro de uma concepção de paideia formativa da cidadania, de uma visão de educação inerente a todo ato cultural. Jovem, ele reporta o que presencia; idoso, rememoriza o que vivenciou. Pela sua leitura, realizamos a passagem do repórter ao narrador. Mesmo longe de sua cidade natal, a faz renascer em textos que, despreocupados com o factual, remontam ao que cada lugar encerra como potência mítica, pois pela escrita ele ritualiza o seu renascimento, brindando o leitor com a percepção de que cada lugar pode ser uma fonte originária. No dizer de David Arrigucci, Rubem Braga reúne aspectos   psicológicos   e ontológicos, quando volta à sua casa, “ponto de estabillidade”, “enquanto se torna consciente de que tudo flui, corrompendo-se”; “fragmento de duração perdida”, simbolicamente reiluminado pelo fogo do tempo vivido. (2001, p.24)

A fixação de uma imagem torna-a um ponto mandalar que, em meditação ou em sonho, dinamiza a interpenetração de várias outras imagens produzidas no curso de nossas vidas. Tal interpenetração sempre nos leva a um lugar diverso daqueles da onde partimos (e para onde sempre podemos retornar), descobrindo-se raízes e ramificações inesperadas e mesmo desconhecidas dos acontecimentos em nossa memória. Interrelacionar os textos de Rubem Braga a notícias e a lugares possibilita estabelecer a composição de um todo do qual fazem parte aspectos cognitivos, emotivos e sensoriais, ou historiográficos, sensitivos e perceptivos, num movimento a um tempo analítico e sintético de compreensão da complexidade do real. Revisitar os lugares onde ele empreendeu sua leitura de mundo torna o leitor um catalizador do tempo passado no presente, funda o sujeito também ele como um lugar realizador de encontro entre o ético, o estético e o poético.
   
Por isso, pode-se afirmar que ler o Rio de Janeiro, à luz de Rubem Braga,  nos faz compreender melhor as mudanças sociais, culturais, política, econômicas e urbanas pelas quais a cidade passou, de 1930 a 1990. No diálogo de Rubem Braga com o contexto (apreensível em grande parte pela leitura dos jornais com os quais ele colaborou), revela-se um sentido para além daquele específico relacionado com a temática e com a época em que foi escrito o seu texto, na medida em que – armados de um filtro de percepção herdado e transformado pela experiência pessoal – presentificamos meandros dessa história na cidade que ainda habitamos. Rubem Braga pode nos fornecer esse filtro, pode nos fazer recuar na história e geograficamente nos fazer reencontrar com um “outro” Rio que nos leve a melhor identificar “este” no qual nos situamos.

  
Em frente à casa dos Braga, 1984. Foto: acervo Roberto Seljan Braga (Estadão)
Precisamos de Rubem Braga, a bem de nossa cidade, de nossa interação com a natureza, mesmo aquela que se mostra em pleno centro da cidade ou num canteiro de obras.

Referências
ARRIGUCCI JR., Davi. “Onde andará o velho Braga?”. In: Achados e perdidos. São Paulo, Livraria Editora Polis, 1979.

________. “Fragmentos sobre a crônica”. In: Enigma e comentário – ensaios sobre literatura e experiência. São Paulo, Companhia das Letras, 2001.
CANDIDO, Antonio. Vários escritos. São Paulo//Rio de Janeiro: Duas Cidades/Ouro sobre azul, 2004.

Livros de CRÔNICAS de Rubem Braga
O Conde e o Passarinho, 1936; O Morro do Isolamento, 1944; Com a FEB na Itália, 1945; Um Pé de Milho, 1948; O Homem Rouco, 1949; Três Primitivos, 1954; A Borboleta Amarela, 1955; A Cidade e a Roça, 1957; Ai de ti, Copacabana, 1960; O Conde e o Passarinho e O Morro do Isolamento, 1961; Crônicas de Guerra - Com a FEB na Itália, 1964; A Cidade e a Roça e Três Primitivos, 1964; A Traição das Elegantes, 1967;  As Boas Coisas da Vida, 1988;  O Verão e as Mulheres, 1990; 200 Crônicas Escolhidas; Casa dos Braga: Memória de Infância (destinado ao público juvenil); 1939 - Um episódio em Porto Alegre (Uma fada no front), 2002;  Histórias do Homem Rouco; O Menino e o Tuim; Recado de Primavera; Um Cartão de Paris
Sugestão de atividades
1. Leitura das crônicas
2. Seleção de cinco de cada uma das seis décadas
3. Leitura de periódicos e da iconografia da época
4. Seleção de lugares citados
7. Visita aos locais selecionados
8. Criação de uma cartografia bragueana

9 de outubro de 2012

As velhinhas da Rue Hamelin

Rubem Braga
Foto: Splendors of Europe
          Paris, setembro – Rue Hamelin, onde morreu Proust. Ali pertinho é a rua Lauriston, onde morreram muitas outras pessoas menos conhecidas: ali era a casa das torturas da Gestapo. Mas na rue Hamelin há coisas imortais: suas velhinhas não morrem nunca. Há aquelas duas que vão todo dia ao mesmo bistrô; uma corpulenta, sempre de chapéu, que lê o Figaro e reclama da qualidade do vinho, mas reclama com uma dignidade que se ajusta bem aos seus 70 anos e muitos anos; reclama e bebe. Mora um pouco para abaixo de minha casa, e eu gostaria de imaginar que mora na casa em que morreu Proust; mas não.
          Atravessa a avenida Kleber com um passo lento no seu vestido negro sempre impecável; como todas essas outras digníssimas velhas usa um vestido que se fecha no pescoço em uma espécie de gola alta, onde há rendas e talvez elástico, talvez barbatana, uma gola que mantém a cabeça ereta através dos séculos, capaz de ver de cima, sem se curvar, as pequenezas do mundo presente. Atravessa a avenida sem olhar para os lados, como se todos os choferes de Paris tivessem o dever de respeitá-la; talvez ao se aproximarem de sua pessoa esses carros motorizados se transformem secretamente em coches e diligências, para fazer ambiente para a sua travessia.
          A outra velhinha tem o ar triste – e come muito. Não creio que dure muito; mas é verdade que há trinta anos atrás ela poderia dar a mesma impressão. É infinitamente velha, e apesar da gola apertada anda devagarinho a olhar disfarçadamente para o chão, como se temesse tropeçar e cair dentro de alguma sepultura. Sua própria velhice já deve ser uma coisa muito velha; ela deve ter perdido algum neto muito querido na guerra franco-prussiana e desde então tem esse ar triste.
          Há ainda uma velha pobre, mas também vestida com a maior dignidade. Outro dia cheguei à janela, atraído por alguns sons feios e tristes que pareciam querer se encaminhar no sentido de uma certa melodia: era essa velha que cantava. Cantava no meio da rua, em pleno sol, parada, olhando os cinco andares de janela. Hesitei um instante antes de lhe jogar algum dinheiro. Sua presença era tão severa como a da genitora de um magistrado mineiro em dia de missa de sétimo dia pela alma de outra genitora de outro magistrado, na igreja de São José. Temi ofendê-la jogando-lhe dinheiro, como já fizera em benefício do cego e da mocinha ou do homem da rebeca ou do algeriano do macaco que dança ao som do tambor. (Sim, porque a rue Hamelin tem seus artistas errantes.) A velha senhora tentava cantar uma velha canção; joguei-lhe algumas moedas dentro de um maço de cigarros. Parou de cantar e recolheu o dinheiro com um gesto difícil e lento, sem se dignar a me agradecer.
Há dois velhos extraordinariamente magros, extraordinariamente brancos, vestidos de negro, com chapéus negros, que andam juntos mas não se falam nunca, como se há quarenta anos atrás tivessem esgotado de maneira irremediável o último assunto; mas há um velho que, segundo descobriu dom Carlos de Reverbel, adora o trato com os outros seres humanos. Veste-se com menos esmero, talvez com uma limpeza duvidosa; até seus cabelos brancos e sua pele parecerem mais encardidos pelos anos e pelas intempéries. Usa uma espécie de sobrecasaca imutável e gosta de ficar parado perto do metrô Boissères. De vez em quando detém um transeunte. Já assistimos essa cena, que o próprio dom Reverbel, com sua paciência já viveu duas vezes. O ancião pede desculpas e faz alguma pergunta sobre a direção em que deve viajar para uma certa gare. A pessoa explica com gentileza: descer em Trocadero, pegar então a direção de Sèvres, etc. O velho ouve com a máxima atenção, movendo a cabeça; e acaba perguntando se não seria muito incômodo mostrar-lhe o itinerário no mapa. Vêm então os dois até o mapa e a explicação é repetida. O velho agradece muito, e outro segue o seu caminho, convencido de que praticou uma boa ação. O que não é inexato. Seria inexato, porém, pensar que o digno senhor pretendia ir a rua Molitor ou a qualquer outra parte. Nunca. Jamais desce as escadas do metrô; continua ali na calçada, com um ar meio desorientado, a espera de outra pessoa a quem perguntará o itinerário de outra estação. Nunca vai, nunca foi a parte alguma; nasceu, já de sobrecasaca, num desses escuros casarões da rue Hamelin, e no lugar de morrer talvez vire estátua na pracinha ali atrás: há muitas estátuas em Paris e se esse velho se disfarçar em bronze e ficar quietinho no meio do jardim, ninguém duvidará que ele seja, por exemplo, o próprio Hamelin. (Desconfio vagamente que é.)
          Mas foi na esquina de Galilée que assisti a um dos encontros mais tocantes que me foi dado presenciar na vida. Vinha de um lado uma velhinha e de outro lado outra. À primeira vista eram iguais; vestidas de negro, luzidias, com passos miúdos, magrinhas como duas formigas. Duas formigas quando se encontram param, para conversar – e as velhinhas pararam na esquina. Durante um instante, uma pareceu observar com atenção a outra; e cada uma deve ter chegado à conclusão de que a outra estava irrepreensível, desde os sapatos pretos até o chapéu preto, desde a bolsa até a pintura das faces. (Porque essas velhinhas de Paris muitas vezes se pintam: além de se pintarem, creio que se armam com espartilhos e outros mecanismos capazes de suster na vertical seus mingüadíssimos restinhos de carne que talvez de outro modo, libertados de tudo isso, virassem cinza e se espelhassem ao vento dos boulevards.) As duas formiguinhas se fiscalizaram um instante, eram ambas tão incrivelmente velhinhas que talvez cada uma apenas quisesse se certificar de que a outra realmente ainda estava viva, ainda existia ao cabo de tantos séculos. Ambas resistiram à crítica – e então como ficaram alegrinhas em se ver! Como ficaram alegrinhas! Parei para vê-las; trocavam palavras gentis com suas vozes de meninas roucas, agitando um pouco, ao falar, as duas mãos, movendo um pouco para a frente os corpos mirradinhos, concordando, agradecendo, sorrindo infinitamente felizes. Então se separaram – e apenas achei um pouco exagerado que, ao se separarem, uma dissesse “au revoir” à outra. Não, elas não se reverão: não, tudo tem um limite, mesmo essas velhinhas dessa rue Hamelin. Certamente cada uma chegou à sua casa, deitou-se assim mesmo toda bem vestidinha, em sua caminha, trançou as mãos sobre o peito murcho – e morreu, afinal.
Foto: JMGLA

29 de maio de 2012

Escola do campo, escola da cidade - Carta de Anísio Teixeira a Rubem Braga

Rio, maio 57
          Meu caro Rubem Braga:
          a sua palavra é hoje tão lida, que fiquei com pena de ver, em meio à sua crônica tão humana sobre as Crianças, lançar você uma porção de dúvidas sobre duas idéias que me são caras para a feliz orientação do problema escolar brasileiro: a escola local, regional e não "consular", "metropolitana", em rigor "colonizadora" e a escola completa, rica, variada, com tempo suficiente para se constituir vida e formação da criança...
      Se lhe sobrasse tempo para ler coisas ainda mais fastidiosas do que "Educação não é privilégio", teria podido ver que essa escola de tempo integral não é a escola do campo mas a da cidade... e, sobretudo, a da cidade moderna, onde a criança já não poderá ter nenhuma experiência integrada e harmoniosa senão na escola, todos os seus outros espaços vitais - o do apartamento, o da rua, o do clube, o do cinema - sendo parciais, fragmentários e contraditórios... No campo, seria o contrário: a escola poderia ser de tempo parcial, como pensa você, pois a grande e boa educação da criança já se faz pela sua vida simples, mas, integrada, responsável, construtiva e, sobretudo, incrivelmente digna, pelo trabalho e pelas relações humanas diretas, sérias e completas...
          Ah! meu caro Rubem, se soubesse quanto penso como você em relação à nossa criança rural! Vou tão longe que as dúvidas que me assaltam são maiores que as suas. Duvido que lhes convenha a própria escola de letras. E não nos sendo possível dar-lhes a escola de trabalho e de enriquecimento de sua própria cultura, pois essa escola exigiria professores de grande preparo e muito dinheiro, chego a achar que melhor seria não lhes dar escola nenhuma. Como isto não é possível, defendo para o campo uma escola modesta, de quatro anos de estudo, e que, ainda assim, mais preparará os alunos para poderem deixar o campo do que para ficar...
          A escola que possuímos é uma escola para o tipo de civilização urbana, só aplicável ao campo na medida em que ele se urbaniza, reurbaniza, dizem hoje, os sociólogos. Como isto, de fato, acabará por se dar, em todo país, a escola deverá organizar-se tão bem quanto possível nas cidades e ir se estendendo pelo campo na sua missão de lhes transformar também gradualmente a vida...
          Já que a escola é, assim, um instrumento de transformação, ou, pelo menos, de consolidação da transformação da civilização rural em civilização urbana, afim de que sua influência não seja exageradamente alienadora, defendo a idéia de fazê-la local e regional. De modo que o meu localismo escolar vai ao encontro de sua dúvida sobre a escola conveniente ao próprio campo. Municipal e local ela se integrará melhor nos defeitos e qualidades do meio, moderando, desse modo, a sua ação naturalmente desenraizadora. A cultura escolar primeiro desenraíza para depois - hélas! só muito depois - plantar de novo e enraizar-nos na humanidade, dessa forma ampla, completa e universal, de que você é um alto e grande exemplo. Daí o nosso cuidado de educadores em acentuar os traços locais e regionais da escola, afim de lhe corrigir a tendência, por assim dizer, congênita de segregar, separar, alienar...
          Sabe você, meu caro Rubem, quanto é difícil pensar claro em nosso país. Como o nosso progresso se fez por acaso, julgamos poder continuar a progredir por acaso. A realidade, porém, não é que progredimos por acaso mas que progredimos, até ontem, lentamente e o progresso lento toma conta se si mesmo e acaba por se harmonizar. Mas, o progresso rápido de hoje não tem tempo para esse reajustamento. Todo progresso é um tumulto e uma deslocação e se se faz muito acelerado destrói mais do que constrói e daí ser necessário um reforço substancial na quantidade de educação do indivíduo para suportá-lo e corrigi-lo.
          A escola primária da Suíça - um modesto e grande exemplo de civilização estável em meio ao tumulto do mundo moderno - impõe à criança onze mil horas de atividades intencionalmente educativas, a americana, sete mil horas, a melhor escola primária brasileira, aos que a frequentam integralmente, dá-lhes duas mil e quatrocentas horas!... Por mais gênios que sejamos nós, brasileiros, por força que há de sobrar alguma diferença entre nós e os suíços. Grande parte dessa diferença será divertida senão boa mas o restante há que ajudar a mudar...
          Seu de sempre,
          Anísio
TEIXEIRA, Anísio. Carta a Rubem Braga, [Rio de Janeiro?], maio 57.
Localização do documento: Fundação Getúlio Vargas/CPDOC - Arquivo Anísio Teixeira - ATc 57.05.00. 
Imagens
http://elfikurten.blogspot.com.br/2011/02/anisio-texeira-o-inventor-da-escola.html
http://www.poesiaspoemaseversos.com.br/rubem-braga/