Produzido no Instituto Superior de Educação do Rio de Janeiro - ISERJ. Nosso e-mail: cidadeeducativa@googlegroups.com

28 de janeiro de 2014

Rua dos inventos - aconteceu há 10 anos atrás


Internet tem dessas coisas. A artista Gabriela Gusmão já está em outra mas este seu trabalho merece ser revisto. Diz ela:

Por este ensaio, fruto de meus devaneios sobre o espaço público, registro um breve testemunho, detalhe na vastidão desse universo, retrato da utopia que alimenta minha crença na possibilidade de reconstrução da realidade pelo olhar transfigurado de um passante desatento às preocupações, mas alerta ao brilho do sol no canto da lata abandonada na esquina.

Da adversidade vivemos. (Hélio Oiticica)
A necessidade obriga. (Seu Veríssimo)
Aqueles objetos poderiam estar mortos, mas foram ativados pela dança muda da transfiguração da matéria-prima residual em genuína arte da sobrevivência. Tratam-se de atitudes baseadas em situações de necessidade extrema, exercidas em caminhos cotidianos surpreendentes, através de peculiares formas de tecnologia.

Deseduquei minha visão a ponto de me ocupar, principalmente, de 'inutilezas' ou "grandezas do ínfimo", como diz o poeta Manoel de Barros com sua graça verbal. E procurei colher, na rua, imagens de uma evidência quase invisível. Arranjos de objetos achados, improvisados ou inventados para desenhar a realidade inadiável, a cada dia.
***
O site Viva Favela  apresenta um bom resumo do que foi a sua exposição
Em busca de uma ideia para sua monografia de conclusão do curso de graduação no departamento de Artes e Design da PUC-Rio, a fotógrafa andava distraída na rua quando viu um homem com uma vara na mão e um copo pendurado na ponta. Ao perguntar o que significava aquilo, ele contou que era para chamar a atenção dos motoristas e evitar ser atropelado novamente. Aquilo a surpreendeu e ela decidiu. Tinha encontrado um belo tema para seu projeto. 
Muitos objetos escolhidos fazem parte do cotidiano. Só que ali ganharam um novo conceito e utilidade. Como a 'carroça-casa', um dos destaques da exposição. O veículo tem armário, retrovisor (com CDs como espelho), fogão de duas bocas na parte de trás, bujão de gás e uma torneira com água. Outra invenção interessante é o eletricafezinho, um caminhãozinho usado para vender café, chocolate, cigarros, balas e cartão de telefone. (…) Outro invento que parece engraçado, mas que também provoca certo desconforto em quem o observa, são os óculos para 'suspensão de pálpebras caídas' de Dona Pequena. Ela, que não tem problema nenhum de visão, usa os óculos sem lentes. "Meu pai e meu irmão tinham esse problema nas pálpebras também. Já uso há pelo menos vinte anos e nunca me incomodou em nada. Às vezes, até durmo com eles", diz Dona Pequena.

Eu uso óculos sem lente porque não tenho nada nos olhos, graças a Deus. Agradeço a Deus que sou perfeita, né? Não tenho nada nos olhos, só tenho na pálpebra, que é caída um bocadinho. Meu pai tinha esse defeito e eu nasci assim. Eu para corrigir só uso esse aparelho. (Dona Pequena)
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O livro está disponível em pdf. 

6 de janeiro de 2014

Saci: lenda urbano-virtual

Quem já viu o Saci Urbano?

Ele esteve no Rio de Janeiro, em Paris, Máuá mas vive no ABC paulista. Talvez em Santo André.

Desenhado por Thiago Vaz.




Na primeira imagem, o Saci Urbano Apocalíptico; na segunda, em aparição; na terceira, brincalhão; na quarta, em Santa Teresa, Rio de Janeiro. Veja os trilhos. Aliás, onde andam os bondes de Santa Teresa? Os antigos, tombados pelo IPHAN? São esses acontecimentos absurdos que fazem o Saci, cara esperto das matas, estranhar a cidade.


O relato do artista grafiteiro no You Tube (ver acima) diz que ele fazia suas intervenções principalmente à noite. Mas o Saci Urbano ficou famoso e agora Thiago Vaz é convidado a grafitar muros. Ainda assim ele aceita algumas sugestões de admiradores. São os fãs do Saci Urbano.

O grafite de cima foi feito perto de Mauá (São Paulo?); o do meio, em Santo André. O último mostra o Saci Urbano ainda rural.

O endereço do blog, quando o Saci Urbano ainda não tinha um autor:
http://eosaciurbano.wordpress.com/

O endereço do site oficial: http://eosaciurbano.art.br.

A participação da criança na cidade 5 - Ouvindo as crianças

                                                                                                                                         Márcia Fernandes
                 Na quinta postagem da série " A criança e sua participação na cidade", trazemos o conceito de cidade amigável,  ou seja, como a cidade pode se tornar parceira da criança, ouvi-la e sobretudo colocar  em prática as contextualizações de sua fala através de mudanças e alterações positivas em seu bairro, sua rua, sua cidade.
           Vários projetos foram apresentados no seminário, projetos que saíram do papel e foram colocados em prática em várias cidades com a participação efetiva das crianças junto ao poder público, sob a tutela de ongs e instituições interessadas em transformar a escuta em ações no espaço integrado de convivência intergeracional.
              Se a cidade foi planejada e pensada por adultos então como as crianças se adaptam a esses espaços, como podem modificá-lo, torná-lo mais lúdico, e se apropriar de praças, jardins, campinhos e terrenos baldios?
              O primeiro projeto - Pensando e planejando a cidade - aconteceu numa escola municipal em São Paulo. As crianças foram ouvidas sobre a rua da escola e, após a coleta de dados e informações, os participantes chegaram à conclusão que a rua era muito triste e escura. A primeira ação foi pintar as calçadas, colorir os muros e  plantar árvores. A rua ficou mais alegre e convidativa e também fez mais sucesso na escola.
          Um desdobramento desse mesmo projeto foi uma conversa com as crianças da escola sobre o espaço de brincar. O que se notou e ficou registrado é que os brinquedos já não eram tão interessantes, não proporcionavam novas emoções, tal como disseram as crianças. Junto com um arquiteto, as crianças projetaram então novos brinquedos que, através de uma iniciativa privada, foram montados nos espaços existentes. Note-se que as ideias foram pensadas pelas crianças e só então adaptadas às possibilidade de criação, montagem e funcionalidade pelo arquiteto. O grande sucesso fez com que o projeto se estendesse a outras escolas do bairro.  
             Outro projeto desenvolvido em duas comunidades  do Rio de Janeiro, Santa Marta e Chapéu Mangueira foi a montagem de um mapa afetivo a partir da indicação, pelas crianças, dos lugares significativos para elas dentro da comunidade, espaços onde moram, circulam,  estudam, brincam e também aqueles onde não podem ou não costumam ir.
           A metologia desse projeto consiste em trazer para as crianças um mapa ampliado da comunidade onde são feitas  anotações e marcações dos pontos da comunidade pelas crianças.  Elas escrevem em cartões os nomes dos lugares (campinhos, buraco, pedra do urubu, escolinha) e acrescentam no mapa, podendo-se complementar com histórias e  vivências a respeito desses locais por qualquer um do grupo. Aos poucos o mapa passa a ganhar uma feição mais afetiva e os lugares passam a ter enredos, positivos ou negativos. Dessa forma, o contexto históricos dos lugares  da comunidade passam a ser conhecidos. A proposta é trazer a informação dos diferentes usos que as crianças fazem desses lugares e os seus desejos de mudanças.
              Mas nem sempre os projetos pensados alcançam os voos esperados. Na Vila Autódromo, Rio de Janeiro, os moradores sofrem  uma constante ameaça de remoção por parte da exploração imobiliária e dos grandes eventos esportivos que a cidade sediará nos próximos anos. Lá  foi montado um Plano Popular da Vila Autódromo (para acessá-lo, clique aqui). Esse plano de desenvolvimento urbano, econômico, social e cultural foi pensado junto com a  comunidade, arquitetos e engenheiros e apresentado à Prefeitura a fim de se criar uma estratégia que possibilite a manutenção da comunidade no local em que vive há mais de vinte anos. Alguns moradores possuem inclusive concessão de direito real de uso, o que cria o impasse junto ao poder público mas infelizmente o projeto não foi aceito pela prefeitura do Rio de Janeiro e os moradores seguem na luta.
         Ainda relacionado ao Plano Popular da Vila Autódromo, houve uma bela  iniciativa do  Laboratório de Cartografia junto às crianças da comunidade: a montagem do mapa afetivo (para acessá-lo, clique aqui).
               Pela leitura do mapa, percebe-se o quanto as possíveis intervenções, remoções, despejos, entre outros acontecimentos  a serem realizados nos  espaços  de morar das pessoas, sejam eles na favela, numa vila ou num lugarejo acarretam mudanças socio-econômicas, culturais e mais ainda psicológicas nos moradores que ali residem. Suas vidas foram construídas a partir dos laços afetivos estabelecidos numa determinada esquina, num campo, numa sombra de árvore, num bar ou perto de um muro. E os novos caminhos tomados pela opção de tornar o Rio de Janeiro numa cidade-evento  engole essas histórias e rouba memórias, destruindo paisagens psicossociais (cf. Suely Rolnick, Cartografia, 1989).
              As mudanças na cidade causam impactos em todos: idosos, jovens e principalmente nas crianças, que constroem as suas histórias a partir das memórias comunitárias. Assim, o aterramento de suas raízes e de suas referências culturais e sociais trazem impactos muitas vezes nunca superados, por se tratarem de interrupções da  construção de suas próprias memórias e das suas histórias significativas. Ouvir as crianças, conhecer suas sugestões e ideias é um grande passo para que o conceito de cidadania comece a ser exercido. Daí a relevância de se pensar numa cidade mais amigável,  que  reconheça a criança como sujeito de direitos. 
              Termino a postagem falando de um documento recentemente criado pela Rede Nacional da Primeira Infância. O Plano Nacional pela Primeira Infância (para acessá-lo, clique aqui), que assegura direitos até os seis anos, tem como um dos seus principais objetivos a criação de metas e ações para que a criança cresça como um  pequeno cidadão, além de garantir  seus direitos nos próximos doze anos.  O Plano destaca a 27ª Sessão Especial da Assembléia das Nacões Unidas (clique aqui para saber mais), ocorrida em maio de 2002 que discutiu Um Mundo Melhor Para as Crianças e apontou dez importantes compromissos e princípios básicos  para os governantes do mundo a fim de assegurarem uma melhor infância. Desses, sublinho aqui o de número nove: Ouvir as crianças e assegurar sua participação.
Que as cidades possam acolher e ouvir mais as crianças!

Rilke na Rodoviária do Rio de Janeiro

Quanto mais solitários houver, tanto mais solene, comovente e poderosa é a sua comunidade.
Rainer Maria Rilke
      
Foto O globo
         Para falar de rodoviária, às dez e meia da manhã, numa segunda-feira, no dia 30 de dezembro de 2013, é preciso olho, muita força de vontade e um lugar na janela já dentro do ônibus com ar refrigerado. Depois de vencida a fila errada para a impressão das passagens compradas na internet, a rampa de acesso às plataformas onde se espera e esperam-nos os ônibus, da sucessão de quente-morno-quente-frio, de alguns espirros pelas diferenças de temperatura, inicio a enumeração, a chamada dos rostos, dos gestos, dos sentimentos flutuantes pela multidão de mochilas, malas de rodas e sem, em filas várias, nas escadas rolantes, no banheiro, nos quiosques de biscoito, na loja de perfumes e na lanchonete.
       Nenhum rosto em particular me vem a não ser talvez o da atendente da companhia de ônibus que, em saltos altos, e com suas pernas muito finas em calças justas, correu para saudar um homem corpulento e bonachão, ao vê-lo sair de uma porta privativa. Ele estava de crachá, e tinha cara de dono satisfeito de um negócio que está indo muito bem. Ele olhou para baixo e retribuiu o sorriso da mocinha. Será um padrinho? Talvez  ele esteja perguntando “e você como está indo no seu novo posto?” Ao que ela responde “muito bem. Tudo isso é tão excitante.”
       Sim, um outro rosto chega agora, o da vendedora da loja de perfumes onde, inoportunamente, fui procurar um lápis de sobrancelha enquanto esperava meu companheiro de viagem à procura de informações sobre onde imprimir as nossas passagens. Quando perguntei pelo lápis, essa outra mocinha me olhou com cara de poucos amigos, não sei porquê. Retribuí o olhar, centrando meu foco entre as sobrancelhas dela. Já li que esse é um bom truque para baixar a bola de mal-humorados. Aparentemente funcionou pois rapidamente ela foi buscar o lápis no mostruário. “Tem tampa?”, perguntei. “Tinha.” E começou a abrir gavetas. “Desculpe, vou ficar te devendo.” “Não tem problema. O bom de querer comprar uma coisa inútil é que, se ela estiver em falta, não tem problema.”
Foto Tania Rego-Agência Brasil
     O rosto do vendedor de biscoito também se sobressaiu por um momento, quando lhe pedi para provar um biscoito de polvilho sabor queijo, depois de ter pedido para provar um de sabor natural. “Ah, moço, é só unzinho.” “É?” (Acho que ele me olhou entre as sobrancelhas.) “E se todo mundo pedisse uma provinha de tudo?” Então vem o rosto da moça da fila do caixa na lanchonete, que se virou para mim, logo atrás dela, quando uma menina postou-se à sua frente. Descaradamente. Com sua notinha de dois reais na mão levantada. “Menina”, disse eu, “tem uma fila”. E ela me olhou, humilde, e foi para trás. Depois vi a mãe dela com um bebê no colo e fiquei um segundo sem saber o que sentir.
Foto Tania Rego-Agência Brasil
     Agora o motorista se sentou em sua poltrona e girou a ignição de partida. A cena da multidão começa a me escapar. O detalhe dos quatro funcionários de empresas de ônibus, com o mesmo uniforme, de gravatas pretas e finas e camisas de algodão branca de manga curta, com sapatos fechados e calças escuras, pernas largadas sobre a pista, sentados no meio-fio de uma das plataformas de embarque, todos jovens e cor de azeitonas, cada um com o seu celular e seus pensamentos, essa imagem em particular faz com que a saída da rodoviária se dilua lentamente.
     Enfim, na rua, penso em Rilke. Na melodia das coisas, como ele chamou o pano-de-fundo no qual o eu e um outro se encontram. Sem essa melodia, não haveria um rosto sequer. Ouço-a. É ela que me faz  sentir pena por ser quase inexistente, ser surda para a música do silêncio. O som do motor do ônibus conduz meu olhar para a janela. Por mim passa um rosto e outro que agora não vejo mais porque estou já a caminho, na rua, com os pensamentos como carneiros ávidos para serem soltos do curral, doida para que a voz aguda de uma passageira se cale. Ela dificulta a gente olhar, ouvir a melodia das coisas, se despedir da rodoviária, da cidade, do ano e de todas as ausências. Mas vou tentar. Vou fechar um pouco os olhos, para abrir espaço de ver novas coisas, e parar de escrever porque agora isso também atrapalha o olhar, a despedida e a viagem até 2014.
Foto Cartummania
Bia Albernaz 
***
Trechos de A melodia das coisas, de Rainer Maria Rilke (trad. Cláudia Cavalcanti)

II. Não posso imaginar mais feliz sabedoria
do que esta:
que é preciso ser iniciante.
Alguém que escreve a primeira palavra atrás de um
secular
travessão.

XI. E a arte nada fez senão mostrar-nos a confusão na qual sempre nos encontramos. Ela nos inquietou, em vez de nos fazer silenciosos e calmos. E provou que cada um de nós habita uma ilha diferente; só que as ilhas não são distantes o suficiente para que permaneçamos solitários e despreocupados. Um pode molestar o outro, ou assustar, ou perseguir com lanças – mas ninguém pode ajudar o outro.

XVI. Seja o canto de um candeeiro ou a voz da tempestade, seja o respirar da noite ou o gemido do mar que o rodeia – sempre desperta por trás de você uma vasta melodia, tecida por mil vozes, na qual só aqui e ali há espaço para fazer um solo. Saber quando é a sua vez – eis o segredo da solidão. Assim como a arte do verdadeiro relacionamento é deixar-se cair do alto das palavras naquela melodia compartilhada.

XVIII. Nós, no primeiro plano, somos bem assim. Benditos desejos. Nossas realizações acontecem longe, em fundos luminosos. Lá existe movimento e vontade. Lá se passam as histórias, de que somos a obscura epígrafe. Lá está nosso encontro e nossa despedida, consolo e tristeza. Lá estamos nós, enquanto caminhamos no primeiro plano.

XXI. Se quisermos, portanto, nos iniciar nos segredos da vida, é preciso pensar em dois aspectos: Um deles, a grande melodia, da qual participam coisas e aromas, sentimentos e passados, crepúsculos e desejos; e então: as vozes de cada um, que complementam e aperfeiçoam todo esse coro. E para fundar uma obra de arte (ou seja: uma imagem da vida mais profunda da vivência, mais do que de hoje, sempre possível em todos os tempos) será necessário relacionar corretamente e equilibrar as duas vozes: uma, a daquela hora em questão, e a outra, de um grupo de pessoas dentro dela.

XXXIX. E somos todos frutos. Mas estamos pendurados em galhos estranhamente entrelaçados e muitos ventos nos sopram. Tudo o que possuímos é a nossa maturidade, doçura e beleza. Mas a força para tal flui pelo tronco de uma raiz, alastrada por mundos afora, em todos nós. E se quisermos prestar testemunho de seu poder, cada um de nós terá de usá-la, em nosso mais solitário sentido. Quanto mais solitários houver, tanto mais solene, comovente e poderosa é a sua comunidade.

16 de dezembro de 2013

O livro urbano do profeta Gentileza virou pó?

   Mônica Vallim
          Há 52 anos, na antevéspera do Natal de 1961, seis dias após o trágico incêndio do Gran Circus Norte-Americano, onde morreram mais de 500 pessoas, a maioria crianças, José Datrino, um paulista nascido em 1917, aos 44 anos, sentiu-se de alguma forma tocado ou incomodado por Deus. Deixou todos os seus bens materiais para seus familiares, e resolveu fazer canteiros de flores e hortaliças nas cinzas do circo em Niterói, que passou a ser conhecido como Paraíso Gentileza.
Fonte: http://www.projetovip.net/0411.htm
          Em meados da década de 70 tornou-se o andarilho barbado de bata branca, com estandarte erguido nos trens e barcas pregando a sua máxima GENTILEZA GERA GENTILEZA. Mas segundo pessoas que conviveram com ele, o profeta era um pregador moralista, e algumas vezes até mesmo agressivo com os transeuntes, por ser muito crítico às minissaias da época, precisando em certas ocasiões ser contido por policiais.
          Na década de 80 virou uma espécie de personalidade carioca quando decidiu pintar murais artísticos nas pilastras do viaduto da Perimetral, no Caju.
          Pintou um total de 56 pilastras que constituíam um verdadeiro livro urbano numerado no principal acesso rodoviário ao Rio de Janeiro.
          Gentileza escolheu pilastras na zona portuária próximas à Rodoviária Novo Rio, onde se dedicou a escrever suas mensagens de amor à natureza, gentileza ao próximo e críticas ao “capetalismo”. Seria um louco e fanático o nosso profeta?
          Segundo o filósofo Giorgio Agamben, o capitalismo é uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia é o trabalho e o objeto é o dinheiro.
***
          Após a sua morte em 1996, devido às pichações a Prefeitura resolveu pintar todas as pilastras de cinza, mas houve uma mobilização de acadêmicos e artistas para que as pilastras fossem restauradas. Em 1999 esse movimento deu origem ao projeto "Rio com Gentileza" visando a restauração dos painéis, concluída em maio de 2000.

          Com o megaprojeto de revitalização do Porto Maravilha, houve a promessa do atual prefeito, Eduardo Paes, de preservar algumas pilastras do Gentileza. Entretanto, se até seis vigas de aço de vinte toneladas cada desapareceram sem que ninguém tenha visto, apesar das várias câmeras de monitoramento espalhadas pela cidade, será mesmo que os painéis de Gentileza serão preservados conforme o prometido ou virarão pó?
          Dia 24 de novembro de 2013 o primeiro trecho do Elevado da Perimetral foi implodido. Até o momento o que foi feito desses murais continua sendo um grande mistério. Mas ao menos salvaram em um blog as fotos  de 55 pilastras restauradas do profeta Gentileza. 
          Inspirado nas ideias de Lefebvre para investigar as ligações entre urbanização, capitalismo e direito à cidade, o geógrafo britânico David Harvey escreveu um artigo inicialmente publicado na revista New Left Review, em 2008, que nos dá algumas pistas quentes para compreender esse episódio um pouco mais.
          Os processos de reurbanização seguem um modelo mundial que atende prioritariamente aos interesses neoliberais de economia globalizada a qualquer preço dirigida aos que dispõem de capital para reinvestir seus lucros em parcerias público-privadas. Utilizando a força do braço armado do Estado, promovem remoções forçadas e gentrificação em determinadas áreas que julgam economicamente promissora. 
          Na medida em que não se investe na mesma proporção em transporte público, saúde, educação e infraestrutura de saneamento básico nas periferias (que a cada verão sofrem com inundações ou deslizamentos após obras públicas de fachada, e responsabilizam a natureza ou o lixo dos pobres pelo caos), vislumbra-se o porquê dos movimentos sociais defenderem generalizadamente relações anárquicas com o poder. E assim as manifestações, que andam violentamente explodindo em várias capitais do mundo, em contrapartida justificam o investimento do Estado em segurança pública.
          A crítica do profeta Gentileza ao "capetalismo", intencionalmente se referindo ao capital como se fosse o capeta da humanidade em seu círculo tendencioso e ilusório, não foi senil ou desatinada diante do que se vive hoje nas grandes metrópoles. 

Fontes
MUSEU VIRTUAL GENTILEZA

IMPLOSÃO DA PERIMETRAL

ENTREVISTA COM AGAMBEN

11 de dezembro de 2013

Brinquedos de ontem e hoje - relato de um Congresso (UFF /2013)

                                                                                                                                                                                     Cris Muniz
Fomos ao Congresso de Brinquedos de Ontem e Hoje apresentar um relato preliminar do projeto Canteiro de Obras na “Ciranda de ideias”, uma modalidade muito interessante de troca de experiências na forma de conversa entre pares. Ali estavam presentes outras iniciativas de caráter não formal, assim como as brinquedotecas, a maioria de escolas de formação de professores, para refletir os limites e possibilidades de um trabalho com o lúdico na formação docente.
          Gostaria de compartilhar aqui algumas questões apresentadas neste evento por Jader Janes, um professor do grupo de pesquisa em Geografia da Infância que penso dialogar com nossas investigações/inquietações. Os estudos desse grupo pensam a criança como um ser geográfico considerando o espaço uma dimensão significativa para sua vida em sociedade e investigam o que definem como territorialidades infantis. Segundo Janes, a investigação da Geografia da Infância busca a forma como a categoria da espacialidade é concebida e como interfere em nossa relação com as crianças e na produção de suas infâncias.
          A pesquisa apresentada no Congresso discutiu o conceito de evolução linear da noção de espaço – do mais próximo para o mais distante – presente nos currículos escolares. Esses gradativamente constroem os diferentes níveis ou dimensões do espaço – eu/minha casa, minha sala, escola, bairro, cidade,  mundo, problematizando as relações entre o mundo e o que está aqui próximo. Esses questionamentos partiram da pesquisa desenvolvida pelo grupo com crianças migrantes. Nelas, a lógica espacial ensinada nas escolas não apareceu, o que aponta para a possibilidade de pensar outras geografias e outras escalas, e para a ideia de topofilia indicada pelos elos afetivos entre a pessoa e o lugar ou seu ambiente físico.
          As crianças migrantes estudadas, mas também outras envolvidas na pesquisa autodenominam-se mudantes – aqueles que mudam constantemente de moradia dentro da própria cidade – e demonstram possuir uma noção de espaço/lugar próximo não como referência espacial, mas afetiva.  O lugar mais destacado pelas crianças migrantes/mudantes foi a escola, especialmente os seus lugares de brincar e de comer, como o refeitório, evidenciando-se aí a prática do territoriolugar em uma escala vivencial, e remetendo ainda à ideia de paisagem que, para além das formas, comportam também cheiros, sons, sabores...
Livro lançado por Jader Janer em 2013 pela editora mediação
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Rememorando passeios:
Topocídio e Autointerdição


          Durante seu relato, Jader comentou ainda a ideia de topocídio ao se referir às remoções de populações pobres de seus lugares/moradias (hoje, como ontem, tão presentes em tempos de Copa do Mundo e Olimpíadas!). Essas reflexões me fizeram recordar alguns passeios que fiz com crianças do CIEP de Ipanema logo no início do projeto Ônibus da esperança (Bus der Hoffnung). Creio ser possível pensar em um tipo de topocídio ao inverso pelo qual moradores de determinados lugares não podem se mover ou pior não se permitem nem mesmo sair.
          Foi isso que senti, por exemplo, quando propus nosso mais longo passeio à cidade de Petrópolis anunciando, com os termômetros recém-chegados à escola para aulas de geografia, que teríamos que subir a serra com lindas montanhas muito altas e iríamos perceber as mudanças de temperatura e tudo o mais. O que aconteceu? Algumas crianças simplesmente não apareceram no dia do passeio. Soubemos depois, com medo de cair lá de cima das montanhas. Outras passaram mal quando paramos no alto da serra, achavam que não estavam mais respirando. Com esse mesmo grupo, em nosso primeiro passeio ao Jardim Botânico/RJ, fui interpelada pela funcionária do orquidário preocupada se as crianças não iriam destruir as orquídeas, ao que não me contive e respondi que elas já haviam comido as carnívoras antes! Depois disso, no caminho de volta deste mesmo passeio, descemos na orla da Lagoa e fomos a pé até a rua Teixeira de Melo, em Ipanema, que dá acesso ao elevador para o CIEP Ipanema, e aí então foram as crianças que, refratando talvez a experiência vivida, me interpelaram perguntando se poderiam andar ali, se não seriam chamadas de faveladas?! Enfim são muitas as exclamações pela interdição ou autointerdição de acesso aos lugares, pela falta de oportunidade de viver lugares experiências, esses onde podemos nos sentir imersos na cidade, pertencendo a ela como qualquer cidadão.

A participação da criança na cidade 4 - Infância e Cidade

Márcia Fernandes
Nesta quarta postagem da série "A criança e sua participação na cidade" trazemos várias perguntas levantadas pela Dissertação de Mestrado da palestrante Fernanda Muller e pelas colocações da coordenadora de comunicação da UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância), Imaculada Prieto.  Trata-se de uma reflexão sobre as políticas públicas e as ações sociais voltadas para as crianças. Elas as atendem de fato? Até que ponto são bem-sucedidas? Enfim, em que medida a infância pertence à criança? As concepções da criança sobre a cidade podem gerar novas concepções sobre a infância? Que contribuições podem ser feitas pelos estudos das crianças?  Que medidas possibilitam e limitam a participação da criança na cidade?
***
          Em sua pesquisa Infância e Cidade: a criança em foco, Fernanda Muller diz: "a infância moderna constrói a criança fora da sociedade, silencia suas vozes e nega a sua autonomia. Será que a modernidade rotula uma infância moldada e propositalmente pensada e desejada pelos adultos e não pelas crianças? Silencia suas vozes?" E se nos permitimos olhar pelos olhos da criança, fazendo este exercício que a autora chama de exercício de percepção e escuta infantil, conseguiremos pensar como a criança? Para a autora, a chave está em poder enxergar a criança como um agente social.
          Com um grupo de crianças em Porto Alegre, ela observa como acontecem as entradas e as permanências no campo da diversidade. Para isso, ela lança mão de uma metodologia que leva em consideração a amplidão do conceito de cidade pois esse é um conceito abstrato, diferente no pensamento de cada um, já que relacionado às experiências de cada pessoa.    
          A palestrante falou sobre a metodologia usada na pesquisa  – o recurso da fotografia – , junto a três grupos de diferentes bairros de variadas classes sociais. Após uma incursão fotográfica, promoveu-se uma conversa com as crianças que relataram o que  acharam mais e menos interessante nesse passeio fotográfico.
          Dar a criança esse tipo de autonomia é trazer à luz o seu conceito de espaço, de tempo e de mundo, diferentes do adulto e divergentes, muitas vezes, do conceitos aprendidos na escola e da família. Essa autonomia conceitual (Marchi, 2007)  dá visibilidade às interações infantis, tal como mostradas no documentário premiado pelo Oscar Nascidos em Bordéis que retrata a vida de crianças no bairro da Luz vermelha em Calcutá e filmado a partir de incursões fotográficas feitas pelas crianças em que elas registravam as suas impressões sobre as ruas do bairro.  A fotografia, dessa maneira, torna-se uma ferramenta de expressão e de voz dessas crianças para o mundo.
          Fernanda Muller propõe, na conclusão de seu trabalho, que para se chegar às crianças é importante que essas sejam  incluídas  nas discussões sobre a cidade que habitam, isto é, que ouçamos a voz das crianças. É que proponhamos um novo modelo de cidade a partir do seu ponto de vista. Enfim, saber quais seriam os  modelos de cidade propostos pelas crianças.
          A autora salienta que é preciso que se  promovam novas ideias sobre quem tem o direito de usar os novos espaços urbanos, obedecendo aos princípios tanto de agência quanto de estrutura. Desse modo, ela traz a novidade da  cidade como laboratório público e as crianças como membros das discussões políticas.
Nascidos em Bordéis (86', 2004). Born Into Brothels: Calcutta's Red Light Kids. Dir: Ross Kauffman e Zana Briski.  Premiado nos mais importantes festivais internacionais, incluindo Sundance e a International Documentary Association, essa co-produção EUA/India é assinada por dois cineastas que narram sua experiência em Calcutá, quando conheceram de perto a vida dos filhos de prostitutas que trabalham na área dos bordéis da cidade.
***
          A coordenadora de comunicação da Unicef no Rio de Janeiro, Imaculada Prieto, trouxe para o debate o tema O direito ao direito, em relação a Comunicação, Infância e Cidade, isto é, como aconteceram os diferentes momentos e aspectos na trajetória da reformulação do direito infantil, considerando que esse se dá principalmente através da expressão, participação e divulgação, independente dos meios e  das fronteiras.
          Ao destacar a importância da participação, Imaculada Prieto demonstra sua sintonia com o Estatuto da Criança e Adolescente como uma expressão do direito ao direito através de iniciativas que passam a ser construídas em torno da criança. Várias  crianças, de várias cidades e culturas passam então a fazer parte da cena: a indígena, a quilombola, a especial etc.

          Pensando neste direito universal, que deve valorizar a integração social, levando a criança a participar e a exercer sua cidadania, se consegue atingir outros objetivos, ou seja, a ter direito a outros direitos. Participar, sugerir, criar propostas em sua cidade é um exercício de valorização estratégico que visa superar as desigualdades sociais.
          Um município, portanto, precisa abrigar uma cidade infância e não uma cidade de infância moderna. Somente através da cultura da participação infantil em seus próprios espaços se conseguirá redimensionar esses mesmos espaços de pertencimento social da criança.  Para tanto, é preciso que se permita a participação infantil no diagnóstico de soluções para mudanças nas políticas públicas em sua cidade.