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30 de abril de 2011

Ninguém mora onde não mora ninguém

Pequena reflexão sobre as pessoas abandonadas nas ruas das grandes cidades
Marcia Tiburi (Revista Cult, 09 de março de 2011)
          Nas grandes cidades, pessoas que não têm onde morar são contraditoriamente chamadas de “moradores” de rua. É um eufemismo que acoberta o quadro da injustiça social típica das sociedades em fase de capitalismo selvagem, aquele no qual a eliminação do outro é a regra. Que tantos e cada vez mais vivam nas ruas é uma prova de que o famoso instinto gregário do ser humano se esfacela, ou assume formas cada vez mais enganadoras porquanto mais voláteis em uma sociedade que é, ao mesmo tempo, de massas e de indivíduos que não têm a menor noção do que significa o outro.
          O aumento das relações virtuais em detrimento das relações “atuais” é a própria perversão das massas marcadas pela anulação física individual em nome de um eu abstrato, sustentado apenas como imagem, como avatar. E que tem como correspondente um outro reduzido à sua mera abstração. Há, certamente, exceções para a regra da distância com que o eu mede o outro.
          Dizem as pesquisas que o número de pessoas vivendo sem teto cresceu nos últimos anos por causa do desemprego. E são milhares. Motivos além do desemprego podem confundir quanto ao sentido (e o sem sentido) da complexa experiência vivida por essas pessoas. Afinal, pode-se encontrar entre os que vivem nas ruas até mesmo quem não se sente em situação de injustiça social.
          A população das ruas das grandes cidades é composta de habitantes (ou desabitantes) provisórios ou não, que estão ali por motivos diversos. Muitas vezes são afetivos. Não é raro encontrar ricas histórias de vida entre as pessoas sem morada, desde aquele que renunciou à vida burguesa por considerá-la insuportável, até quem por meio de inesperadas leituras filosóficas criou um significado para o ato de “habitar” a transitoriedade, ou seja, “desabitar” instransitivamente e estar assim, na mera existência.
          Que não habitar uma casa possa significar uma experiência existencial é, no entanto, apenas a exceção que confirma a regra da contemporânea injustiça social a cuja base racional e afetiva tantos entregam as forças. Renunciar, desistir, jogar a toalha, permitir-se a impotência como o Bartleby, de Melville, ou o fracasso, como um dia afirmou J. L. Borges, pode ser o único modo de viver em um mundo marcado pela melancolia e pelo sem sentido em termos políticos, estéticos e metafísicos.
          O cenário social contemporâneo é o espaço e o tempo dessa possibilidade de fracasso que diz respeito à potencialidade mais profunda de nossos tempos. É a forma mais terrível do mal, a da banalização que se estabelece na vida humana como força lógica. Como um “deixar acontecer” ao qual damos o nome de “abandono”, esse ato de exílio, de ostracismo, de curiosa rejeição sem ação. A mendicância das pessoas é apenas a verdade íntima do capitalismo como mendicância da própria política deixada a esmo em nome de antipolíticos interesses pessoais. A mendicância é a imagem social das escolas, dos hospitais públicos, do salário mínimo…
          Democracia de teto e paredes

          “Moradores de rua” são a figura mais perfeita do abandono que está no cimo da devoração capitalista. Convive-se com eles nos bairros elegantes das cidades grandes como se fossem um estorvo ou, para quem pensa de um modo mais humanitário, como um problema social a ser resolvido filantropicamente. Alguns moram em lugares específicos, têm sua “própria” esquina, carregam objetos de uso aonde quer que vão, outros perambulam a esmo desaparecendo da vista de quem tem onde morar. São meras fantasmagorias aos olhos de quem não é capaz de supor sua alteridade. Esmagados pela contradição de morar onde não mora ninguém, não têm o direito de ser alguém. Partilham o deslugar. E, no entanto, praticam o mesmo que os outros dentro de suas casas: dormem, comem, fazem sexo. A condição humana é o que se divide por paredes ou na ausência delas. A democracia torna-se uma questão de nudez e exposição da vida íntima.
          Ninguém “mora na rua”; antes, quem está na rua não mora. Quem está fora dos básicos direitos constitucionais está excluído da sociedade. E muito mais além da Constituição, está excluído pelo próprio status com que é medido. O status de “morador de rua” é apenas um modo de incluir os excluídos na ordem do discurso acobertadora do fascismo prático de cada dia oculto sob o véu da autista sensibilidade burguesa. Se o princípio de autoconservação a qualquer custo é a base da ação de indivíduos unidos na massa, está imediatamente perdida a dimensão do outro sem a qual não podemos dizer que haja ética ou política. Mesmo sob o status de morador de rua, o mendigo da nossa esquina é a prova do fracasso de todos os sistemas. Se as estatísticas não mudarem comprovando que a tendência da exceção pode ser a regra, talvez a democracia de teto e paredes não sirva mais a ninguém em breve. Só que às avessas.

***
Para gerar visibilidades

O Coletivo Heróis do Cotidiano, liderado pela professora Tania Alice, da Escola de Teatro da Unirio. faz performances nas ruas para mostrar a importância de pequenos atos, como por exemplo, chamar atenção de cidadãos invisíveis, colocando-se ao lado deles, na mesma posição, enquanto dormem nas ruas, em bancos ou no chão.


Pequenos atos heróicos podem ser feitos por qualquer pessoa no dia a dia.

28 de abril de 2011

Memórias da cidade (exposição)

De 6 de abril a 22 de maio de 2011
Avenida Rio Branco, 241 - Centro
(21) 3261-2550
De 3ª feira a domingo, das 12h às 19h
Entrada franca

Coleção de fotografias do cotidiano do Rio de Janeiro nos anos 1950 e 1960

Memórias da Cidade reúne 34 fotos impressas a partir de negativos no formato de 120 mm (considerado por especialistas como um clássico da fotografia analógica) e traz, em uma sala especial, uma projeção multimídia com aproximadamente 40 fotos. Para a exposição, o curador Ricardo Mello, gerente da Agência O Globo, buscou um olhar além do fotojornalismo. “Ao longo dos anos, em nosso trabalho com imagens, nos deparamos com fotografias do Rio de Janeiro de décadas passadas que nos saltavam aos olhos; tanto pela qualidade de suas composições, como pelo charme dos espaços urbanos e a atitude das pessoas que os ocupavam. As imagens tinham características diferentes do fotojornalismo e contavam a história da cidade, a partir de uma visão artística, em preto e branco. Assumimos o desafio de criar uma cadência visual, que representasse o ar romântico e elegante do dia a dia das décadas de 50 e 60 e que pudesse ser mostrado ao público", afirma.

26 de abril de 2011

Eu tomo conta do mundo

Clarice Lispector
          Sou uma pessoa muito ocupada: tomo conta do mundo. Todos os dias olho pelo terraço para o pedaço de praia com mar, e vejo às vezes que as espumas parecem mais brancas e que às vezes durante a noite as águas avançaram inquietas, vejo isso pela marca que as ondas deixaram na areia. Olho as amendoeiras de minha rua. Presto atenção se o céu de noite, antes de eu dormir e tomar conta do mundo em forma de sonho, se o céu de noite está estrelado e azul-marinho, porque em certas noites em vez de negro parece azul-marinho. O cosmos me dá muito trabalho, sobretudo porque vejo que Deus é o cosmos. Disso eu tomo conta com alguma relutância.
          Observo o menino de uns dez anos, vestido de trapos e magérrimo. Terá futura tuberculose, se é que já não a tem.
          No Jardim Botânico, então, eu fico exaurida, tenho que tomar conta com o olhar das mil plantas e árvores, e sobretudo das vitórias-régias.
          Que se repare que não menciono nenhuma vez as minhas impressões emotivas: lucidamente apenas falo e algumas das milhares de coisas e pessoas de quem eu tomo conta. Também não se trata de um emprego pois dinheiro não ganho por isso. Fico apenas sabendo como é o mundo.
          Se tomar conta do mundo dá trabalho? Sim. E lembro-me de um rosto terrivelmente inexpressível de uma mulher que vi na rua. Tomo conta dos milhares de favelados pelas encostas acima. Observo em mim mesma as mudanças de estação: eu claramente mudo com elas.
          Hão de perguntar por que tomo conta do mundo: é que nasci assim, incumbida. E sou responsável por tudo o que existe, inclusive pelas guerras e pelos crimes de leso-corpo e lesa-alma. Sou inclusive responsável pelo Deus que está em constante cósmica evolução para melhor.
          Tomo desde criança conta de uma fileira de formigas: elas andam em fila indiana carregando um pedacinho de folha, o que não impede que cada uma, encontrando uma fila de formigas que venha em direção oposta, pare para dizer alguma coisa às outras.
          Li o livro célebre sobre as abelhas, e tomei desde então conta das abelhas; sobretudo da rainha-mãe. As abelhas voam e lidam com flores: isto eu constatei.
          Mas as formigas tem uma cintura muito fininha. Nela, pequena como é, cabe todo um mundo que, se eu não tomar cuidado, me escapa: senso instintivo de organização, linguagem para além do supersônico aos nossos ouvidos, e provavelmente para sentimentos instintivos de amor-sentimento, já que falam. Tomei muito conta das formigas quando era pequena, e agora, que eu queria tanto poder revê-las, não encontro uma. Que não houve matança delas, eu sei porque se tivesse havido eu teria sabido. Tomar conta do mundo exige também muita paciência: tenho que esperar pelo dia em que apareça uma formiga. Paciência: observar as flores imperceptivelmente e lentamente se abrindo.
          Só não encontrei ainda a quem prestar contas.

25 de abril de 2011

Carta para um lugar no Rio de Janeiro - Meu querido Grajaú

Mônica S. Vallim
Quando vim morar no Rio de Janeiro, tinha uns 15 anos e a cidade não era violenta como é hoje. Havíamos sido criados em casas com quintais, e era a primeira vez que moraríamos num apartamento, mas qual não foi a minha surpresa ao me deparar com aquela vista privilegiada. Da janela do meu quarto eu avistava uma floresta! Parecia um quadro emoldurando uma paisagem.
Guardo as boas lembranças de uma pedra enorme que se destacava da vegetação, e que parecia a morada da lua e do sol. No entardecer, pouco a pouco, o sol se escondia por trás dessa pedra e o céu anunciava com seu multicolorido de tons mais escuros o fim de mais um dia. Era um espetáculo místico, todos os fins de tarde, apreciar a chegada da noite da minha janela. Às vezes, a escuridão do céu escondia a grande pedra e a floresta, e eu apreciava apenas as estrelas, mas quando era noite de lua cheia a grande pedra também brilhava. Parecia que ela piscava e me convidava a desvendá-la.
Todas as vezes que avistava aquela pedra, eu prometia a mim mesma bem baixinho: um dia eu vou tocar em você, um dia te verei de pertinho.
Mas eu era recém chegada numa cidade grande, num colégio novo, com suas “panelinhas” formadas. Tinha apenas meus irmãos como amigos. Meus colegas da antiga escola, das brincadeiras de rua, ficaram em outros estados que morei. Contudo, sobrevivi à adolescência, apesar ou, quem sabe, justamente por ter esta pedra em meu caminho.
***
Um dia, meu irmão caçula de 11 anos me confidenciou que iria às escondidas fazer uma caminhada até a Pedra com um amigo. Pediu segredo. Aproveitei-me da situação e impus uma condição. Eu guardaria o segredo se me levassem e, para a minha surpresa, eles prontamente concordaram. Também pudera, quem era a mais velha naquela aventura secreta? O certo é que dissemos em casa que iríamos fazer uma caminhada pelo novo bairro, sem especificar o local. Omissão não é mentira, é esquecimento estratégico, pois se anunciássemos aonde iríamos ouviríamos um sonoro não. Eu nem dormi direito na véspera de tanta ansiedade e medo de sermos descobertos. Durante a madrugada preparamos o lanche, biscoitos, sanduíches e enchemos nossos cantis com água fresca.
Durante o café da manhã, ainda catamos umas frutas e um bom pedaço de bolo de cenoura para comermos pelo caminho, e partimos animados com nossos trajes de praia escondidos por baixo da roupa. Partimos da Rua Uberaba, em direção à Reserva Florestal do Grajaú na Rua Comendador Martinelli 740, especificamente em direção ao Pico do Perdido que também é conhecido por Bico do Papagaio ou Pedra do Andaraí. Meu irmão disse que havia uma cachoeira por lá.
Embora morássemos em apartamento, durante o trajeto até a Reserva observamos que existiam poucos edifícios. Ainda havia muitas casas com quintais enormes e arborizados em nosso bairro. Algumas ruas até tinham árvores enormes. A avenida Engenheiro Richard me chamou a atenção por ser repleta de tamarineiras.
Quando chegamos, a Reserva ainda estava fechada e tivemos que esperar a abertura dos portões por quase meia hora. Mas a espera foi recompensada quando começamos a explorar aquele paraíso. À medida que seguíamos em direção ao Pico do Perdido olhávamos a cidade lá do alto. Tudo parecia pequeno e silencioso. Dava a impressão que a cidade ainda não tinha acordado direito. Sentíamos-nos distantes do barulho e do caos urbano de buzinas e freadas. Ao longe, ouvíamos o apito de uma fábrica.
***
O nosso experiente guia, embora fosse o mais alto, era uns três anos mais novo que eu, mas conhecia bem aquelas trilhas, pois já havia feito outras caminhadas por ali. De repente, percebi – já não avistava ou ouvia mais a cidade. Estávamos dentro da floresta . O que se ouvia eram uns piados estranhos, barulho de bicho correndo na mata, o canto distante de algum pássaro e o cri-cri constante dos grilos. Observávamos atentamente o caminho, pois alguns animais diferentes podiam estar escondidos, camuflados nas folhagens, e podíamos pisar neles sem querer. Foi então que ouvimos um barulho... da cachoeira! Apressamos o passo. Eu estava cansadíssima, sugeri uma parada para o lanche, mas queríamos aproveitar aquela fartura de água e não podíamos nos demorar ali, pois o objetivo era chegarmos ao Pico e estarmos de volta em casa antes das três horas da tarde para não levantar suspeitas.
A parada foi rápida e refrescante. Resolvemos deixar o lanche para mais tarde quando chegássemos ao Pico, e logo retomamos a caminhada.
A trilha foi longa e repleta de surpresas. Em cada canto da floresta se descobria uma novidade. Vários insetos e plantas diferentes com coloridos exóticos, borboletas gigantescas, micos, camaleões. Lembro que também cruzamos com uma cobra, era uma jararaca. Deu medo, mas como não mexemos com ela, conseguimos passar tranquilamente.
***
Caminhar por tuas matas me deu uma enorme paz e satisfação. Gerou um encantamento nunca dantes experimentado e, mesmo cansada, em nenhum momento pensei em desistir.
Finalmente quando chegamos ao Pico do Perdido e pus as mãos em você, senti o teu calor, foi como se me passasse um pouco da tua energia boa, e a sensação de que havia te encontrado perdura até hoje. Os meninos resolveram ir até o cume, mas naquele momento eu me contentei em ir até ali. Porém, agora que estamos separadas por uma serra, todas as vezes que desço a Grajaú-Jacarepaguá a caminho do Instituto de Educação, e te avisto de longe, toda imponente e poderosa, bate uma saudade danada daquela aventura e eu repito baixinho só pra mim: um dia te toco de novo grande pedra.
Fontes

21 de abril de 2011

As cidades

          Estavam no poente luzidias,
          Acesas e magnéticas chamando
          Sob o infinito céu das tardes frias.

                                            Sophia de Mello Breyner Andresen

JMGLA

20 de abril de 2011

De fazenda a bairro (carta de agradecimento ao Meier)

Alex Andrade
Tornamos público a tua promoção, por serviços prestados por tão longa data, de Fazenda  a Bairro, ó MAYER. Desde muito cedo já notávamos tua personalidade aflorada. Tudo começou com o desentendimento daqueles fazendeiros, que se diziam donos de ti, e com os Jesuítas, que acabaram sendo expulsos  pela Coroa Portuguesa.

De Fazenda a Bairro, em 13 de maio de 1889, sempre demonstrando um coração bondoso, acolheste a todos, inclusive os escravos fugidos que formaram quilombos  na Serra dos Pretos-Forros.

No primeiro plano, Taquara, Tanque, Pechincha, Freguesia e Linha Amarela. Ao fundo: a Serra dos Pretos Forros

Nome imponente: Augusto Duque Estrada Mayer.
Daí ao progresso foi um pulo. E você se tornou um dos lugares mais valorizados da Zona Norte: Estação ferroviária, o jardim do Méier.
          Ah, o jardim do Méier, que alegria e encantamento! Os passeios com meus pais, o teatro de marionetes, as fotos com o lambe  lambe (como podia, de dentro daquele pano preto, sair uma foto?) E depois da foto, cinema Imperator a maior sala de cinema da América Latina com 2.400 lugares, passear pelas barraquinhas, quanta nostalgia.
          Já ia me esquecendo dos discursos políticos e paradas cívicas que meu pai adorava, enquanto minha mãe não perdia as apresentações musicais e os eventos religiosos. Aliás, quando começou a construção da Basílica do Sagrado Coração de Maria, não tinha um só dia que minha mãe não passasse em frente às obras, como se ela fosse a arquiteta responsável.
          E você, acolhedor Méier, sempre pronto a receber novas construções. Mais tarde para o deleite de meu pai, foi a vez dele, acompanhar as obras do Sport Clube Mackenzie. E quando ficou pronto, as tardes de domingo eram sempre na piscina. Mas o lugar seu que mais me encantava eram as escadarias, pareciam as mais altas do Rio. Era como se eu estivesse no céu. Lá do alto podia avistar o porto, pois você era baixo, depois cresceu e não conseguia mais ver nada. Que pena!
          Mesmo não tendo as praias  por perto, sempre que íamos até elas, eu trazia um punhado nos bolsos e as espalhava ao longo das suas calçadas. Em compensação, podíamos apreciar as belas montanhas que lhe cercavam e a sua calmaria que nos permitia a paz de espírito.
          Portanto e por muito mais, faltam-me palavras e espaço para agradecer pelo acolhimento, Rabisquei estas palavras para que todos sejam conhecedores da sua grandeza, querido Bairro.

As muitas faces de Jorge (exposição)

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